sobre Lizzie e Darcy


Divaguei sobre desperdício e inspirei uma pessoa a escrever sobre os invisíveis do cotidiano. E essa pessoa me levou a pensar sobre eles e sobre o meu papel atrás do balcão. Também me sinto invisível às vezes. Quando fazem o pedido sem me dizer bom dia ou me pagam e saem sem agradecer. Às vezes eu agradeço e recebo um vazio como resposta. Em outros momentos me sinto exposta até demais. Quando me perguntam sobre a minha vida pessoal ou me explicam como eu deveria tocar meu café. Existe uma linha que divide a superexposição da autopreservação? É possível equilibrar-se?  Ou é melhor seguir invisível para não se machucar? Às vezes dói não ser visto. Muitas vezes dói ser cobiçado como um objeto a se possuir. Extrapolei a discussão da invisibilidade para pensar na condição da mulher. Estamos sempre com medo. A todo momento ouvindo o quanto somos frágeis, quando na verdade não somos: é apenas o que os donos do poder querem que pensemos para seguir nos dominando. Existe uma condição feminina de acolhimento que assusta, eu creio. Quem pensa diferente é considerado uma aberração e merece punição nesta nova velha sociedade que está se apresentando. Quanta estupidez ser contra o feminismo. E olha que estou falando de mulheres conservadoras que estão em posições importantes e de direta influência nas decisões sociais e que se orgulham de se declararem contra o feminismo, como se fosse uma doença querer as mesmas oportunidades e o mesmo respeito, não importando o sexo. Igualdade para todas as minorias está muito longe, eu sei. É uma luta de uma vida inteira e faz sofrer todo dia. Eu tenho muito pouco conhecimento de causa porque sou branca, de olhos claros, sobrenome europeu, crescida na classe média paulistana, com curso superior e dona do meu próprio negócio, de uma casa e carro próprios, férias na praia, escola particular a vida toda, roupa nova, doces gostosos e brinquedos novos todo aniversário e dia da criança; mais privilegiada impossível. O que eu sei do sofrimento das minorias? Sei apenas o que observo. Sim, sou boa observadora, apenas. Talvez esse seja meu dom nesta vida. Ver e pensar sobre, apesar de pouco fazer. Deveria ler mais, eu acho. Mas às vezes as verdades se apresentam para a gente com tanta claridade que não dá para jogar o problema para debaixo do tapete e seguir vivendo a vida na bolha. Eu sou mais feliz intercalando as bolhas, conhecendo gente diferente de mim, que só me agrega conhecimento e sentimentos que me eram estranhos e hoje fazem parte de mim. É engraçado como as pessoas mais próximas da realidade em que cresci - e que aprendi como sendo a minha - são as que menos ensinam. Ou melhor: só disseminam preconceitos. Eu passei essa primeira metade da vida julgando tudo e todos só porque repeti comportamentos. Quando percebi que também era julgada e sofri por isso, uma luz de emergência se acendeu em minha mente e comecei a avaliar meus pensamentos e ações. E a tentar corrigir meus erros diários. É um aprendizado mesmo porque nossa capacidade de errar supera nossa capacidade de ser empático na dureza da rotina. Li alguns livros, ouvi algumas palestras, vi séries e filmes e conversei muito com pessoas mais experientes e aprendi muito sobre a possibilidade de abraçar o diferente sem medo. Meditei. Ou pelo menos tentei. No mínimo, a nossa vida fica mais colorida, cheia de nuances, de sentimento, de música quando saímos da zona de conforto. Acho que praticar o respeito ao próximo é respeitar-se a si mesmo. E ai não teremos tanto medo da exposição porque aprenderemos a nos amar como somos e consequentemente amaremos a todos exatamente como são. Já dizia Jane Austen, nas palavras do preconceituoso Darcy, que amou Lizzie, que era orgulhosa que só ela.

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