obesa
distorção de imagem é algo muito sério. algo inexplicável. a gente se olha e vê algo que não reconhece. de repente, você é uma adolescente saudável, porém tímida, que não conhece ninguém com o mesmo corpo que o seu e começa a achar que tem algo errado. e passa a se esconder. desiste das minissaias, dos tops, das sandálias, da maquiagem e vive dentro de camisetões e tênis que te permitem sumir. você escolhe passar os sábados à noite ouvindo música no quarto ou vendo séries na TV. ou, quem sabe, bebendo Coca-Cola enquanto seus pais jogam baralho e bebem cerveja com seus primos mais velhos. você faz 18 anos e pede: mãe, quero fazer uma plástica. mãe, quero tomar roakutan. só assim serei feliz. e você tira metade do peso dos seios e usa azelan para as manchas na pele e omeprazol para o estômago e seu rosto finalmente se livra das espinhas que doíam. e por um milagre você não tem cicatrizes de tanto apertar as feridas que jorravam aquela gosma branca odiosa que te fazia pensar: ele nunca vai me notar. e você se prepara para o segundo semestre da faculdade de jornalismo com uma personalidade renovada e blusinhas no lugar das camisetas. e descobrem sobre a sua cirurgia e escrevem sobre isso no mural da sala, tirando sarro. você volta para o jeans e moletom e passa os próximos três anos dentro de casa. faz amigos no estágio e vez ou outra vai ao bar com eles ouvir rock. namora um desses amigos, que diz que você está "fofinha". você não está. está no peso certo. tem ótimas saúde, nunca fica doente. mas vive num mundo todo errado e não sabe disso, por isso se odeia um pouco mais e aceita o comentário como verdade e desde então não se reconhece no espelho. passa a ver uma jovem gorda. e viaja sozinha de mala e cuia para viver o sonho italiano e se apaixona pelo colega jornalista espanhol que só tem olhos para a alemã esbelta. e você entende que nunca terá chance porque é "fora do padrão". e segue viajando sozinha, criando memórias que são só suas. a primeira neve, a primeira pizza napoletana, a primeira ida à Veneza. volta para casa e muda de cidade e recomeça num emprego novo, num jornal diário, com um monte de jornalistas novatos como você, e se apaixona por um deles, que só tem olhos para a morena inteligente e com tudo no lugar e você fica sozinha, de novo. e sempre que se olha no espelho pensa que tem algo errado. os anos passam, você é promovida, decide cursar nova faculdade, faz terapia, mas fica doente e sai do emprego. recomeça de novo, muda de profissão, abre a cafetetia do sonhos, sozinha de novo, mas não dá conta. fecha tudo e enfrenta a pandemia em casa. e pela primeira vez, se reconhece no espelho: 20 quilos mais gorda. a distorção de imagem acabou, pois finalmente você vê aquilo que sente. e quando revisita as fotos da adolescência e juventude, chora. de raiva por não ter amado aquela menina tão linda. por não ter levado ela para passear e beijar os meninos. por ter escondido algo tão belo do mundo. aos 45, segue sozinha. com poucos amigos. em casa, ouvindo música no sábado à noite. aprendeu a se virar. a cuidar de si. a deixar a casa limpa e ter o próprio negócio. prefere esquecer o corpo e viver as coisas boas sem pensar no amanhã. porque o que ela vê no espelho finalmente conversa com o que ela tem gravado na mente desde que alguém a chamou de "fofinha". "agora sim", ela pensa. "agora sim posso me amar." mas ela ama alguém que está doente. que precisa parar de comer para aplacar a ansiedade. que precisa beber mais água para não ficar tonta. que precisa se exercitar para poder levantar da cama no futuro. mas o distúrbio de imagem sussura: "não é tão ruim quanto parece". "hoje o seu corpo é chamado de midsize e você pode se aceitar". e você se aceita e até encontra corpos parecidos com o seu, mostrando que você pode existir na sua pele. pode ser feliz sendo quem é. e aí você decide se movimentar pensando no futuro e descobre que ser quem você é ser obesa. "seu joelho pode doer num futuro próximo", diz a médica. e aí a verdade se escancara: você fez isso. se abandonou. só porque se reconheceu num corpo que nunca foi seu quando tudo começou a dar errado. agora é hora de buscar ajuda e fazer o trabalho duro. é hora de honrar aquela jovem linda e saudável que você nunca amou, amando e cuidando dessa jovem senhora que se deixou levar pelos devaneios de uma mente que cresceu sendo maltratada pelo discurso dos homens e agora entendeu que só ela mesma pode se salvar.
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