sobre baleias
Sem querer querendo eu aprendi na prática como o algoritmo realmente funciona. Quer dizer, eu trabalho para ele e sei que, hoje, quase tudo é por causa dele, mas eu nunca imaginei que despertaria para um sonho só porque vi um vídeo aleatório no Instagram.
A verdade é que estava rolando o feed quando vi um vídeo de uma baleia jubarte nadando em meio a arraias no litoral de Ilhabela. O vídeo do fotógrafo especializado em vida marinha Rafael Mesquita foi feito com auxílio de um drone, então a perspectiva da cena era ainda mais grandiosa. Aquela imagem ficou guardada no meu inconsciente e me vi seguindo o trabalho desse fotógrafo, que é um grande pesquisador e incentivador da conservação animal. De repente, me vi seguindo as empresas que oferecem avistamento de baleias no litoral paulista e pensei: acho que quero ver baleias.
Dois anos se passaram desde que esse singelo sonho despertou no meu peito e finalmente parti em busca das baleias. Eu pesquisei sobre elas, sobre a temporada, sobre as empresas credenciadas, pesquisei pousadas, estradas e decidi que desse ano não passaria.E compartilhando esse desejo com amigos e familiares, ganhei na prima arquiteta a companhia perfeita para procurarmos baleias.
Partimos, então, rumo a Ilhabela, repletas de otimismo.
No primeiro dia, frio, vento, tempo nublado e quatro horas de barco para ver um lobo marinho brincalhão e uma revoada linda de aves oceânicas. Nada de jubartes. A decepção estampada na cara de todo mundo. Eu e a Ne molhadas, com os cabelos desgrenhados, tremendo de frio. Com uma vontade de chorar, tomei um chocolate quente olhando pro mar e torcendo por um borrifinho. Nada.
Decidimos dar uma volta de carro pela ilha e visitar os mirantes, de repente a gente poderia ver a tal jubarte de longe. Nada também. Quer dizer, toda uma orla linda pra contemplar com o sol descendo no mar, já que o tempo resolveu abrir à tarde e corar nossas bochechas.
Decidimos tentar de novo, afinal, o plano inicial era garantir uma segunda tentativa caso a primeira fracassasse. De passeio comprado para o dia seguinte com um bom desconto, banho tomado e casacão de veludo em plena praia, fomos comer um lanche no restaurante ao lado da pousada quando recebo a mensagem: passeio cancelado. Sem previsão de baleias na região para a quarta-feira e vento muito forte que impede a ida dos barcos ao mar aberto, onde as jubartes gostam de saltar. Outra decepção. Voltou a vontade de chorar. Pedi o reembolso e arrumei a mala para seguir a viagem de volta pra realidade.
Na manhã seguinte, levantamos sem despertador, carregamos o carro e fomos abastecer o estômago na padaria de fermentação natural na orla do Perequê,q onde esquentamos o corpo após chacoalhar no barco feito milho de pipoca estourando na panela. Prontas para pegar a balsa rumo a São Sebastião, espiamos o mar mais uma vez em busca de borrifos. Já na embarcação, recebo nova mensagem da empresa: baleia franca avistada no canal. Vamos? E a gente presa na balsa. Que lástima.
O plano seria passear pelo centro histórico de São Sebastião antes de rumar a São Paulo. Estacionamos na praça central e demos de cara com uma placa: passeios. Corremos perguntar se tinha lugar na lancha que estava prestes a sair e nada. Nenhuma vaga. Outra bola na trave, pra usar o jargão da Copa do Mundo que acontecia em paralelo à nossa aventura.
Combinamos com a dona da empresa de nos avisar caso surgisse um passeio à tarde e fomos visitar a cidadezinha. Aproveitamos para conhecer a igreja matriz de São Sebastião, onde fizemos cada uma a sua própria oração. Eu confesso que agradeci pela oportunidade de viajar em companhia da minha prima e que se fosse pra gente ver baleias, que São Sebastião me mostrasse um sinal.
Saindo da igreja, vi a seguinte frase desenhada nos muros da Casa de Cultura: "O que se leva da vida é a vida que se leva". Pensei: já vim até aqui, há de surgir uma oportunidade de tentar de novo. E fomos almoçar.
Sentamos em um restaurante famoso à beira-mar e dividimos um prato delicioso, enquanto aguardávamos a chamada da moça por um possível passeio. Meio dia e meia veio a mensagem: "Tem lugar na lancha pra vocês".
Terminamos de comer e corremos pra encontrar o Rodrigo. Naquela hora, nem pensamos sobre subir a serra no escuro mais tarde. Tiramos o tênis e entramos na lancha pequena rumo ao canal em busca da baleia franca e seu filhote, que horas antes se exibiram para os passageiros da balsa como se nada fosse e a gente não viu.
Buscamos um grupo que estava à nossa espera do outro lado do canal, em Ilhabela, e partimos em direção aos navios atracados.
De repente, um borrifo ao longe. E outro. Uma cabeça pra fora da água. Outro borrifo. Menor. Era o filhote. E assim foi a nossa tarde: rodeando mãe e filhote de longe, apenas contemplando o horizonte à espera de um aceno.
Vieram vários acenos de nadadeiras, uma e delas bem pequenina. Mãe nadando de barriga pra cima, filhotinho borrifando água e colocando a minúscula cabeça pra fora do mar. A dupla simplesmente existindo e nós, assistindo de camarote.
Até que veio o tão sonhado salto. Foram quatro saltos seguidos da mamãe baleia. De uma espécie que não costuma saltar, apenas flutuar com meio corpo pra fora da água, borrifando como quem diz: estou passando por aqui. Algo raro aconteceu bem na minha frente e eu só consegui agradecer pelo privilégio de estar ali.
Já nem lembrava mais que toda essa aventura era culpa do algoritmo. Que se eu nunca tivesse visto aquele post eu nunca teria me interessado por baleias e descoberto todo um universo que existe em torno desse ser quase pré-histórico.
Não vimos jubartes, mas vimos as primeiras baleias francas da temporada em Ilhabela. Elas vivem em Santa Catarina e sua presença no litoral paulista é um alento para os pesquisadores, pois significa que essa espécie que estava em extinção já está ganhando população novamente.
Enquanto vivia cada etapa desse sonho maluco, me perguntava por quê? Por que ver baleias? Não cheguei a nenhuma conclusão, apenas que precisava fazer isso um dia. E esse dia tinha que chegar logo. Pois ele chegou e eu vivi junto com a prima que sempre gostou de baleias e me levou até elas dirigindo mais de 1,5 mil quilômetros de estrada sem titubear.
Eu vivi com meus amigos e familiares que apoiaram a ideia e me ajudaram a concretizar e comemoraram comigo ao ver o meu próprio vídeo de uma baleia saltando no mar.
Eu vivi a decepção do acaso e depois a alegria da persistência. Eu vivi pra ver o plano inicial sair do papel. Eu fui corajosa o suficiente pra tentar de novo, arriscando entrar num barco desconhecido e ter que pagar por mais um passeio novamente. Tudo isso estava previsto no checklist dessa aventura e deu certo.
Foi mais uma lição da vida sobre entregar e confiar. Algo que me é tão difícil, já que gosto de controlar tudo e acabo surpreendida pelas expectativas, sempre altas.
Eu sei que não precisava ter aprendido nada nas férias. Era só um momento de descansar e ser feliz. Mas a vida insiste em me fazer descobrir significados ocultos, que me ajudam a evoluir e inventar novos sonhos.
Foi incrível 🤩 e sou grata pela sua persistência. Foi graças a ela que consegui realizar um grande desejo meu, obrigada prima por contribuir para a realização desse desejo. ❤️
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