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sem presentes

Já sei o que quero para 2013: não quero ganhar ou dar presentes. Quero me livrar dessa pressão idiota de tentar agradar a todo momento. Não quero nada, só quero estar ali do lado de quem amo, partilhando o dia a dia, fofocando, rindo, dividindo uma cerveja. Não quero pensar que devo isso ou aquilo a ninguém. Quero me livrar dessa culpa que me persegue e aceitar que os outros são muito diferentes de mim e que nunca vou mudá-los e tentar aprender com o que me incomoda neles. Talvez seja o que mais incomode em mim, vai saber. Só sei que não quero retribuir cada gesto. Não quero pagar cada coca-cola dividida no almoço, nem o pedaço de bolo. Quero me livrar dessa necessidade de ser perfeita o tempo todo. Quero incomodar a prima aos sábados à tarde só para poder brincar com a pequena. Quero vê-la crescer e dar os primeiros tombos, os primeiros passos, quero ouvi-la dizer mamãe e papai ao lado da prima. Quero participar porque eles têm uma importância tremenda que não vale a pena fugir só por...

a farmacêutica

É mais uma que se vai. Que coloca seus pertences em uma caixa, enche as malas de roupas e vai seguir a vida. Ela chegou há cinco anos, de mansinho, sempre cuidando da própria vida de forma muito independente. Nunca me deixou cumprir o papel de prima mais velha. Há quatro anos mudou-se para o quarto ao lado e de lá saiu poucas vezes. Estudou como prodígio, dormiu como bicho-preguiça, namorou, brigou, chorou, frequentou festas de república, preparou comidas estranhas como strogonoff de soja, sempre muito independente. Lembro de tentar convidá-la para um ou outro almoço de domingo, mas não rolou. Ela no quarto ao lado e eu na sala. Vivendo juntas, separadas. Não sei se são os oito anos de diferença na idade, se são os interesses diversos de duas vidas, se são nossas personalidades, só sei que não conversamos muito nesse tempo todo. Mas quem sabe tenhamos conversado o suficiente. Peguei essa menina - hoje um mulherão cheio de atitude - no colo. Eu a mais velha, ela a caçula. Cabelão compri...

oitenta anos

Tudo o que preciso saber sobre ela se resume no fato de estar viva. Se não fosse sua insistência com a tal parteira, talvez eu não estivesse aqui hoje para escrever sobre ela. Ela, minha vó Therezinha, a Therê do Milton, a mãe do Zezinho e da Guacira. A madrinha e mãe da Terezinha, que ganhou seu nome numa homenagem que virou família. Minha vó e avó da Natalia, do Adriano, da Amanda, da Ana Paula, da Bruna e, agora, também da Isabelly. A dona Therezinha, dona de uma força de vontade capaz de subir paredes, capinar mato do quintal, preparar bolinhos de banana num piscar de olhos só para agradar os netos. Eu a conheci 32 anos anos atrás, quando nasci, cinco dias após ela completar 48 anos. Ela deve ter me visto no hospital mas precisou correr para cuidar do marido, que havia comido umas laranjas passadas e teve uma crise estomacal. O Milton ficou uns dias internado e só foi curtir a primeira neta depois que a filha estava recuperada da cesariana. Coisas da vida. Histórias desencontradas ...

o choro

Então eu tive três rápidas semanas de férias apenas sete meses depois de tirar um longo mês de descanso merecido. Foi um ano e meio sem sair da redação, treinando estagiários, demitindo repórteres, me acostumando com o fracasso do projeto que nasceu morto, endoidando e pensando em jogar tudo fora. Depois daquelas férias no início do ano, de viagem com a mãe, de conhecer o canto longínquo da irmã, de comer polenta com os tios italianos, estava certa de que teria que mudar de vida senão enlouqueceria. A internet, definitivamente, não é para os fracos. E eu ainda sinto que fracassei com ela, mas a verdade é que ela vinha me abandonando desde o início da nossa relação. Talvez eu seja, sim, uma garota impressa. Sei lá. Só sei que há quatro meses preciso descobrir pautas de veículos e economia e tenho feito da melhor maneira que consigo. Hoje já sem tanto medo como quando ouvi da chefe que teria de editar o jornal impresso. Nunca minha falta de confiança em mim mesma gritou tanto e tive tant...

lembranças demolidas

Já não da mais para roubar uma rosa ao passar em frente ao número 135 da Rua Soldado Cristóvão Morais Garcia.  Derrubaram a casa da minha vó. O dono resolveu usar o terreno para construir um galpão onde estacionará seus caminhões. Meu coração apertou, veio uma vontade de chorar, mas não fiz nada. Simplesmente calei. E lembrei. Do portão que abria para fora, do vô esperando no portão de vidro para dar beijo estalado, do cheiro de comida fresquinha vindo da cozinha. Lembrei do rádio ligado em programas populares, enquanto eles tomavam café da manhã. Meu vô sentado na mesa da cozinha, de frente para a porta do quintal, fingindo acenar para a minha mãe que estava na janela do apartamento. Eu não chorei mas meus olhos se encheram de lágrimas. Pareceu que a vida me dava mais um cutucão, mostrando que o futuro insiste em chegar mesmo eu não estando preparada. Me bateu saudade das festas juninas e fogueiras improvisadas da vó, de subir no telhado para ver os balões de São João e cantar com...

mais um dedo de prosa

Um bule de café sobre o fogão à lenha A mãe havia morrido subitamente. Jovem, com pouco mais de 40 anos, havia acabado de dar à luz a caçula. Uma simples dor de estômago levou-a ao hospital e pegou a família de supresa. Não havia nada que o patriarca pudesse fazer se não criar os oito filhos do casal sozinho.  Os dois mais velhos - ainda adolescentes - precisaram assumir o cuidado dos irmãos enquanto o pai cultivava a terra. O menino ajudava na lavoura. A menina preparava as refeições, lavava e passava as roupas, limpava a casa. E deixava um bule com café sobre o fogão à lenha para quando o pai retornasse da roça.  Os menores também tinham suas obrigações. Depois de frequentar as aulas do jardim de infância pela manhã, cuidavam do sítio: um alimentava os porcos, o outro recolhia os ovos do galinheiro, o terceiro regava a horta e o menor ajudava os outros três. A menina ajudava a irmã mais velha na cozinha e cuidava da bebê de apenas um ano. Diversão era pouca mas ...

bella

No dia em que o Facebook anuncia 1 bilhão de seguidores pelo mundo eu fico sabendo, por acaso, enquanto dava aquela última olhada no site antes de encerrar o expediente no jornal, que a Bellinha ia nascer a qualquer momento. Nossa, que surpresa deliciosa num dia daqueles. Uma informação simples do primo adolescente em meio a tanta bobagem que a gente posta na rede social me deixou ansiosa e também o resto da família, afinal, a menininha resolveu nascer uns 20 dias antes do combinado. Foi apenas pressa de vir ao mundo. O parto foi rápido e nenê e mamãe estão bem. Papai está com elas e a nonna já chegou para cuidar da turma por uns dias. E eu, claro, preciso contar tudo isso ao mundo virtual, que às vezes parece mais real que a vida. Essa pequenina tão querida antes mesmo de ocupar um espação na barriga da Su povoava nossos desejos: nada mais justo que um casal que se ama presentear os amigos com o fruto dessa união. Isso é perpetuação da espécie, é feli...