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cuidando

Nos últimos três anos estive cuidando da alma e me esqueci do corpo. Esse amigo que suporta - quase sem reclamar - todas as aventuras da minha alma inquieta. Se estou feliz, quero comemorar, se estou triste, quero me recompensar e nesse círculo vicioso, ganhei quilos a mais que estou suando para perder. Nunca antes na minha história pressionei tanto a balança. E isso me assustou. Se com 15 quilos a menos já me imaginava uma solteirona abandonada, imagina agora. É como se não tivesse nenhuma chance. Só que como cuidei da alma nos últimos três anos, entendi, finalmente, que a minha solteirice nunca teve a ver com as gordurinhas e o braço de polenteira. E sim com as neuras de viver sempre confiando na minha imaginação e não em mim. Por isso, estar acima do peso - escolha minha, já que abandonei qualquer exercício e qualquer vontade de comer comida saudável nos últimos tempos - me ajudou a enxergar velhos medos e colocá-los à tona, de uma vez por todas. Um dia um rapaz reparou nos meus cab...

um dedo de prosa apaixonado

Quando o relógio bate seis da tarde, a namoradeira se empeteca e vai para a janela. Se debruça no parapeito para ver o movimento da rua. Os rapazes e moças voltando para casa depois de um exaustivo dia de trabalho. E ela a cobiçar os moços mais bem apanhados. Um deles chama sua atenção pelo jeans surrado e camisa xadrez, mas olhos de um verde brilhante, que guardam um certo mistério. A namoradeira, vestida de chita, cabelo liso amarrado com fita e batom vermelho nos lábios, espera que um dia esse trabalhador repare na janela dela. Quando o apito da fábrica grita é hora de descansar. O metalúrgico troca o macacão sujo de graxa pelo jeans surrado e a camisa xadrez. Coloca as botas e parte para o ponto de ônibus que o levará para o sítio. E ele poderá dar uma última olhada na moça que todas as tardes guarda o horizonte da janela amarela. Em sua incursão pela vida alheia, a namoradeira reparou no jovem que corria feito louco para alcançar o ônibus que parava, todo fim de tarde, em frent...

meus clássicos italianos

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E dai que eu sou filha de um italiano. Meus nonnos eram italianos, meus tios são italianos e eu sempre senti um orgulho danado disso, sem explicação. Tenho uma nonna italiana do lado da mãe, que deixou de herança os olhos azuis da vó Therê e, por consequência, os meus olhos azuis. De italiana a Therê só tem os olhos, o resto é português como o vô Joaquim. E nessa mistura toda, minha mãe nasceu branquinha com olhos castanhos, cabelos volumosos - ainda que lisos na adolescência - e braços fortes, de polenteira. Não que ela fizesse muita polenta, mas comer ela comeu bastante. Como eu, que guardei todas as particularidades dela mesmo tendo sido a cara do meu pai quando pequena. Foi estranho me olhar no espelho um dia desses e descobrir que sou parecida com a minha mãe. Quando era pequena, sempre diziam que eu era a cara do pai e a Natalia a cara da mãe, com seus cachinhos loiros. Ela sempre foi mais magrela que eu, mas na adolescência desenvolveu braços de polenteira como as mulheres da fa...

sem presentes

Já sei o que quero para 2013: não quero ganhar ou dar presentes. Quero me livrar dessa pressão idiota de tentar agradar a todo momento. Não quero nada, só quero estar ali do lado de quem amo, partilhando o dia a dia, fofocando, rindo, dividindo uma cerveja. Não quero pensar que devo isso ou aquilo a ninguém. Quero me livrar dessa culpa que me persegue e aceitar que os outros são muito diferentes de mim e que nunca vou mudá-los e tentar aprender com o que me incomoda neles. Talvez seja o que mais incomode em mim, vai saber. Só sei que não quero retribuir cada gesto. Não quero pagar cada coca-cola dividida no almoço, nem o pedaço de bolo. Quero me livrar dessa necessidade de ser perfeita o tempo todo. Quero incomodar a prima aos sábados à tarde só para poder brincar com a pequena. Quero vê-la crescer e dar os primeiros tombos, os primeiros passos, quero ouvi-la dizer mamãe e papai ao lado da prima. Quero participar porque eles têm uma importância tremenda que não vale a pena fugir só por...

a farmacêutica

É mais uma que se vai. Que coloca seus pertences em uma caixa, enche as malas de roupas e vai seguir a vida. Ela chegou há cinco anos, de mansinho, sempre cuidando da própria vida de forma muito independente. Nunca me deixou cumprir o papel de prima mais velha. Há quatro anos mudou-se para o quarto ao lado e de lá saiu poucas vezes. Estudou como prodígio, dormiu como bicho-preguiça, namorou, brigou, chorou, frequentou festas de república, preparou comidas estranhas como strogonoff de soja, sempre muito independente. Lembro de tentar convidá-la para um ou outro almoço de domingo, mas não rolou. Ela no quarto ao lado e eu na sala. Vivendo juntas, separadas. Não sei se são os oito anos de diferença na idade, se são os interesses diversos de duas vidas, se são nossas personalidades, só sei que não conversamos muito nesse tempo todo. Mas quem sabe tenhamos conversado o suficiente. Peguei essa menina - hoje um mulherão cheio de atitude - no colo. Eu a mais velha, ela a caçula. Cabelão compri...

oitenta anos

Tudo o que preciso saber sobre ela se resume no fato de estar viva. Se não fosse sua insistência com a tal parteira, talvez eu não estivesse aqui hoje para escrever sobre ela. Ela, minha vó Therezinha, a Therê do Milton, a mãe do Zezinho e da Guacira. A madrinha e mãe da Terezinha, que ganhou seu nome numa homenagem que virou família. Minha vó e avó da Natalia, do Adriano, da Amanda, da Ana Paula, da Bruna e, agora, também da Isabelly. A dona Therezinha, dona de uma força de vontade capaz de subir paredes, capinar mato do quintal, preparar bolinhos de banana num piscar de olhos só para agradar os netos. Eu a conheci 32 anos anos atrás, quando nasci, cinco dias após ela completar 48 anos. Ela deve ter me visto no hospital mas precisou correr para cuidar do marido, que havia comido umas laranjas passadas e teve uma crise estomacal. O Milton ficou uns dias internado e só foi curtir a primeira neta depois que a filha estava recuperada da cesariana. Coisas da vida. Histórias desencontradas ...

o choro

Então eu tive três rápidas semanas de férias apenas sete meses depois de tirar um longo mês de descanso merecido. Foi um ano e meio sem sair da redação, treinando estagiários, demitindo repórteres, me acostumando com o fracasso do projeto que nasceu morto, endoidando e pensando em jogar tudo fora. Depois daquelas férias no início do ano, de viagem com a mãe, de conhecer o canto longínquo da irmã, de comer polenta com os tios italianos, estava certa de que teria que mudar de vida senão enlouqueceria. A internet, definitivamente, não é para os fracos. E eu ainda sinto que fracassei com ela, mas a verdade é que ela vinha me abandonando desde o início da nossa relação. Talvez eu seja, sim, uma garota impressa. Sei lá. Só sei que há quatro meses preciso descobrir pautas de veículos e economia e tenho feito da melhor maneira que consigo. Hoje já sem tanto medo como quando ouvi da chefe que teria de editar o jornal impresso. Nunca minha falta de confiança em mim mesma gritou tanto e tive tant...