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casinha do sítio

Quando eles chegaram ao Brasil, nos idos dos anos 1950, meus avós precisaram de muita coragem para desbravar as terras férteis do sudeste paulista. Primeiro veio o nonno. Preso de guerra, ele sobreviveu ao campo de concentração, esperou a paz chegar na Europa e decidiu vir ao Brasil em busca de oportunidade e mais qualidade de vida para os seis filhos, já que a velha bota estava falida. Na Itália, ele cultivava grãos, cuidava de umas vaquinhas, então não seria novidade nenhuma trabalhar no campo. Mas lá, os sítios eram menores e conquistar a América foi um sonho trabalhoso, que contou com a ajuda da mãe, da esposa, dos irmãos, filhos e sobrinhos. Ao lado do irmão mais novo, seu Igino desmatou a área onde construiria a casa que abrigaria a família toda, em um lote da Fazenda Pedrinhas. Eles eram em pouco mais de dez pessoas que viajaram de navio por cerca de 20 dias, rumo à vida nova. Aqui, os nonnos tiveram mais dois filhos. A bisnonna morreu pouco tempo após desembarcar em Santos, o i...

meu tio agricultor

Estava sentada no sofá da sala da tia Bepina, ouvindo ela contar sobre a vinda da família da Itália para o Brasil. Ela tinha 10 anos e se lembra de detalhes da travessia que meu pai, que era um bebezinho de apenas um ano, nunca recordaria.  Ao lado do marido, o tio Vitorino, ela contou que ganhou o apelido de Bepina em homenagem ao primo Giuseppe, que havia morrido na guerra. Como ela nasceu enquanto o nonno estava lutando, a nonna a havia batizado de Rosana. Bem, o nome Rosana ficou só para os documentos pois todo mundo a chama mesmo é de Be.  Ouvindo o marido dela contar como a família passava fome na Europa, fiquei com vontade de chorar. Nunca havia imaginado tamanho sofrimento, pois hoje o tio Vitorino, que viu o irmão mais velho partir para a guerra, o pai trabalhar para os alemães e a mãe cozinhar polenta com açúcar para aplacar a fome dos quatro filhos, se senta confortavelmente em frente à tv de 20 e poucas polegadas para contar sua história com o bom humor de sempre...

il pulcino pio

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Quando participei da entrevista de emprego para uma vaga de repórter da Folha de Londrina, há dez anos, a chefe do RH da empresa me perguntou qual era meu sonho jornalístico. Respondi, sem pestanejar, que era cobrir uma Copa do Mundo. Ela riu da minha cara e disse que não era possível (outros três caras haviam respondido a mesma coisa antes de mim), que eu deveria escolher outra coisa. Não da para escolher outra coisa. Sonho é sonho e ponto. Quando pequena decidi que seria repórter de campo. Na época de prestar vestibular, escolhi jornalismo e lutei diariamente contra todos os meus medos e minhas limitações para, 12 anos depois, sentar aqui e escrever sobre essa experiência maravilhosa que tem sido fazer parte da mídia manipuladora. Descobri, primeiramente, que no dia a dia, somos mais manipulados que manipuladores, mas não é sobre isso que vou contar. Vou relatar meu mês como editora de esportes, as tabelas erradas, a ansiedade pela primeira partida internacional que veria e pela prim...

um bosque

Todo dia eu preciso atravessar o bosque para chegar ao trabalho. Todo dia existe a minha casa, de um lado do bosque, e a minha vida, do outro lado do bosque. Bem, estou exagerando. Mas a verdade é que todos os dias esse aglomerado de árvores antigas me cerca. Quando acordo, é a primeira coisa que vejo pela janela. Depois, preciso atravessá-lo, pelo menos duas vezes, para chegar ao trabalho, que fica a um bosque de distância do meu pequeno apartamento. Poderia ver a sede do jornal da minha sacada, não fossem as velhas árvores. E todo dia, ao chegar do trabalho, coloco o pijama, me ajeito no sofá e puxo o cobertor. Comigo, a tevê e as árvores lá fora, balançando com o vento. Quando chove, a janela tem que ficar fechada, porque o cheiro do coco das pombas é insuportável. Mas fora isso, e o fato de eu ter que lavar meus sapatos todos os dias e correr para atravessar a calçada suja toda noite, o bosque enriquece meu dia. Me dá a sensação de que não estou mais na metrópole, de que tem vida a...

hoje é o céu, o esporte e eu

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De repente me foi dado o rural e minha rotina se acalmaria. Eu teria dois cadernos semanais para cuidar e ajudaria a construir a página diária de agronegócio do jornal. Melhor impossível o reconhecimento da capacidade. Ai me foi dado o esporte. O bom e velho esporte que me abandonou e voltou por acaso. Sem chance de dizer não, de fugir, de permanecer na zona de conforto. Uma certa coragem nasceu dentro de mim nos últimos tempos e a vontade de aceitar desafios - mesmo que só no trabalho, por enquanto - me motiva. Tem sido ótimo viver um dia de cada vez. Pensar no hoje e fazê-lo dar certo. Se ficasse só nessas duas edições já teria valido a pena. No primeiro dia, duas matérias sobre o Palmeiras sem querer e no segundo dia, publicar a eliminação do meu time e a escalação brasileira para a Copa das Confederações. Copa essa para qual estou me preparando para participar. Em um mês verei a nazionale italiana enfrentar os mexicanos no Maracanã com a prima que talvez seja a única pessoa que con...

melodramática

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Minha irmã diz que sou melodramática. Talvez eu seja mesmo. É que  constantemente relembro o passado, quando tudo parecia fazer sentido. Mas esse  mesmo passado para o qual eu corro sempre que tenho saudade, nunca foi assim  tão perfeito para eu desejá-lo de volta. Hoje eu vivo meu presente. Mas às vezes fico saudosa e, p ortanto, melodramática. Eu lembro da minha adolescência solitária e em frente à  tv, tendo brigas homéricas com a minha mãe por motivos idiotas e fugindo para casa dos meus  primos, que eram nossos vizinhos. Eu lembro que me sentia segura com eles,  que podia contar todos os meus mais íntimos segredos, que nossa conversa  nunca sairia daquele apartamento de dois quartos no Parque Novo Mundo. Eu  lembro deles sempre me animando e me convidando para sair. Tudo o que eu  conheci da noite paulistana aos 18 anos eu devo ao Marcio Aurélio e à Anna  Maria. Eles eram meus irmãos mais velhos e com eles eu não precisava ser ...

dez anos

Eu tava aqui pensando, dez anos é muito tempo? É pouco tempo? É tempo suficiente? Não cheguei a nenhuma resposta. Só que esses dez anos parecem ter voado. Digo isso hoje, depois que eles passaram. Ou melhor, ainda estão passando. Faltam exatamente três meses e dez dias para completar uma década de Folha de Londrina. Uma década de Paraná. Uma década fora da casa dos meus pais. Uma década dividida com muitos. Uma década só minha. Desde que cheguei aqui me pergunto o que vim fazer por aqui. Por que aquele japonês baixinho me escolheu para trabalhar para ele lá na sucursal do Oeste paranaense, onde não tem nada de interessante e ainda assim muitas pautas acontecem. Por que fui uma das poucas repórteres que permaneceu depois daquela onda de demissões em 2004. Onda que levou o japonês baixinho. Por que fui parar no campo, voltei para cidade, fui para o universo paralelo e agora estou econômica e veloz. Por que tudo isso? Mereço tudo isso? Só consigo me perguntar qual o propósito de tudo isso...