Postagens

um dólmã

Imagem
Em todo o meu desespero para tornar a vida mais leve, resolvi colocar uma antiga vontade em prática e iniciei uma faculdade de gastronomia. Pelos próximos dois anos acordarei cedo e passarei as manhãs na cozinha, preparando delícias ao lado da prima e dos jovens (e alguns não tão jovens) colegas de universidade.  Preguiçosa que sou, me pergunto onde tudo isso vai dar. Mas ainda estou naquela fase inicial do relacionamento quando tudo é apaixonante e adoro passar meu dólmã e preparar a mochila para ir para "escola". Apesar de "suadas", as aulas são a parte mais refrescante do meu dia, que nem sempre tem hora para acabar. Nesta empreitada, conto com a companhia da prima caçula, que também decidiu aprender a comandar as panelas. Acordamos cedo juntas, vestimos o uniforme juntas e rimos juntas das nossas trapalhadas na cozinha. Não, não ficamos no mesmo grupo e tive que reaprender a conhecer pessoas e fazer novas amizades. Difícil, já que decidi que tenho amigos sufic...

trabalho, paciência e fé

Se tem uma coisa a que estou acostumada é escutar produtor rural reclamar. Seja da falta de chuva, do preço da semente, do adubo e do defensivo, dos baixos valores recebidos pela soja e pelo milho, da política do governo. Isso graças aos meus tios agricultores, personagens da minha história rural.  O mais velho, mesmo com as costas travadas, não deixa ninguém subir na plantadeira e faz questão de colher a própria soja a cada safra. Tem filho agrônomo, genro horticultor e netos que ajudam o pai a cuidar da horta aos fins de semana.  Tem outro tio que está sempre no barracão ajustando o maquinário. Ele acorda e vai dormir olhando para o céu, pedindo chuva. E diariamente leva bronca da tia por entrar em casa todo sujo de poeira. E tem o tio que toca sozinho a pequena propriedade do pai e sustenta duas famílias.  Tem também o tio que trabalhou com os dois filhos mais velhos até pouco tempo atrás e hoje vê os garotos crescerem por conta própria, arrendando terra, investindo...

wishlist

Imagem
Num domingo em que normalmente eu acordaria tarde, almoçaria café da manhã, veria pelo menos dois filmes antes de tomar banho e ir trabalhar, a amiga convida para provar chilli. E o almoço de domingo ganha caráter especial quando me encontro com os amigos da amiga e participo de uma conversa que há tempos não experimentava. Quis colocar meus pontos de vista em alguns momentos, mas em geral teria sido bom do mesmo jeito só sentar e ouvir, entre um gole e outro de cerveja ou entre uma mordida ou outra no doritos recheado de guacamole. E foram algumas horas de conversa: uma troca inigualável de histórias e pontos de vista. O mais divertido é que tudo se deu na mais santa paz, sem agressões, sem ninguém querendo impor verdades sobre o outro. Sai de lá com a vontade de estender o papo porque aprendi tanto e queria continuar aprendendo com meus amigos. Percebi que sou ingênua sobre algumas posições até mesmo porque tenho pouca informação sobre o assunto e entendi que preciso ler mais para po...

aqueles oito alqueires

O bom de reunir toda a família para comemorar as festas de fim de ano é poder sentar com aquele tio que você não vê durante o ano todo e conversar. Neste último Natal com a italianada não foi diferente. Depois da comilança preparada com carinho pelas tias, que mais uma vez nos deliciaram com a lasanha e a maionese, e pelo tio e pelo primo, que tomaram conta da churrasqueira, resolvi dividir uma cerveja gelada com meu pai, dois tios, um primo e uma prima para lembrarmos, juntos, como era a vida no sítio.  O tio mais novo começou lamentando o quanto era judiado pelos mais velhos. Meu pai e o outro tio riram, retrucando que não era mais do que a obrigação dele saber tirar leite da vaca, alimentar as galinhas, carpir, selar os cavalos, enfim, realizar os pequenos afazeres do dia a dia de uma propriedade rural.  O tio baixinho e invocado ralhou com meu pai, dizendo que boa vida teve ele, que pouco trabalhou no sítio, já que desde adolescente saiu de casa para estudar. Meu pai, o...

vida sem filtro

Eu senti um aperto no peito ao receber uma notícia bem triste no segundo dia do ano. Foram dias de aperto no peito. O aperto passou, mas deixou uma certeza: é preciso estar perto de quem se ama. Decidi fazer todos os tipos de sacrifício para ficar com que eu amo. Ainda que dê preguiça de vez em quando. Ainda que o sofá e a tevê pareçam mais convidativos. Ainda que a mãe insista em ficar brava por motivos irracionais. Ainda que ela me faça chorar depois de mais de um dia sem dormir. Eu quero estar perto de quem eu amo porque é desse amor que me alimento. É esse carinho que me faz ter vontade de seguir em frente. Eu preciso ser mais paciente, menos reclamona, mais sorridente, mais positiva. Desses pequenos momentos ao lado de quem me ama incondicionalmente eu conseguirei o combustível para acreditar que posso ser uma pessoa melhor. Não perfeita, melhor. Ao receber outra notícia bem triste e descobrir que quem eu amo está mais próximo de mim do que eu poderia imaginar, tive a certeza de q...

eu posso

Este ano foi o ano do "Yes, I can". Eu posso morar sozinha, ainda que seja difícil enfrentar a solidão de algumas tardes de domingo. Eu posso guardar dinheiro, ainda que não tenha conseguido economizar o suficiente para a viagem dos sonhos. Eu posso passar um mês de férias na casa dos pais sem brigas, ainda que tenha chorado muitas madrugadas, sem vontade de voltar ao trabalho. Eu posso cobrir as férias do colega que acabou de virar papai e editar esportes, ainda que eu tenha passado o mês coçando. Eu posso dar conta de editar veículos e agronegócio e ainda dar plantão na economia e política, ainda que não saiba muito bem como lidar com os repórteres. Eu posso viajar à Inglaterra e dirigir um super Land Rover, ainda que tenha batido em quatro carros parados. Eu posso ganhar alta da terapia, ainda que sofra os meses seguintes, tentando lidar com os problemas sozinha. Eu posso ir ao Rio de Janeiro com a prima assistir a Azzurra jogar no Maracanã, mesmo que tenhamos esperado qua...

dias de praia

Hoje é aniversário da minha madrinha que tem nome de rainha. Regina. Ela que é mãe de três, tem dois empregos e uma cachorrinha que é uma flor. Ela que é esposa do tio Zé, o único irmão da minha mãe. Meus padrinhos. Aliás, diferente da italianada da cidade de nome diminutivo, minha família paulistana é relativamente pequena. E sempre esteve presente enquanto eu crescia na metrópole.  Nos reuniamos quase sempre aos domingos na casa da vó Therê e do vô Milton, no Novo Mundo. A casa que tinha o jardim de rosas mais cobiçado da redondeza. E nós brincávamos de mamãe polenta e lenço na mão no quintal e depois nos sentávamos à mesa da cozinha para comer bolinho de banana, coscorão ou pão torrado com manteiga. Também balançávamos nas redes e inventávamos teatrinhos imitando a Praça é Nossa.  Me lembro quando os tios moravam no mesmo prédio que a gente, um andar acima. Lembro de sempre ir brincar com o Adriano, o filho mais velho da tia Re. Lembro até do dia em que ele ganhou o fusc...