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Diário de uma aluna de gastronomia

Amor, paciência e água Ter coragem para levar uma vontade adiante é mais ou menos como assar um pão. O segredo está na paciência. Desde pequena me vejo preparando bolos para adoçar a boca da família. Me vejo inventando molhos para o macarrão de domingo e tentando preparar o risoto perfeito para uma noite solitária. Há anos acompanho e aprendo com os programas de culinária da TV, desde os tempos da Ofélia. Aliás, é dela minha receita infalível de bolo de chocolate com rum.  Pois seria natural querer começar uma nova aventura numa faculdade de gastronomia. Tempo e vontade de sobra, uma poupança no banco e a companhia da prima dez anos mais jovem me estimularam a colocar em prática um sonho antigo.  Devaneios  A moça da poltrona marrom, que analisa meus devaneios, me alertou: se eu quiser ter sucesso na empreitada de ser uma universitária aos 33 anos e 13 anos de jornalismo terei que aprender a esperar o pão fermentar antes de colocá-lo no forno para assar e ficar f...

mi buenos aires querida

Me senti como numa cena de um filme. Era como se a qualquer momento alguém interviria na minha solidão, me sacando para fora dela e me apresentando a vida. Mas não. Foi apenas um passeio por Puerto Madero. Eu olhando para cima a cada arranhacéu que cruzava meu caminho em busca de uma medianeira. De uma falha na estrutura que me levasse a esse mundo mágico que vive em mim e do qual sou refém. Caminhando por Buenos Aires - e hoje os ares eram gelados e o vento machucava os olhos - me senti como estivesse em qualquer outra cidade do mundo, vivendo a rotina. Mas não estava na minha velha rotina e sim numa escapada que se mostrou difícil, porque este público simplesmente não liga para mim e não adianta sorrir e dizer que sou de Londrina etc e tal porque é cada um por si e a montadora por todos. Mas enfim, tive que caminhar sozinha por las calles e por medo de me perder, perdi a chance de explorar mais. Uma perda calculada já que me esperava no quarto 421 do Hilton um banho de banheira. Porq...

ameixa ou nêspera

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Quando a Heloísa era pequena, corria para o fundo do quintal roubar ameixa do pé. E como se deliciava com a frutinha de cor alaranjada e sabor pronunciado que o pai dela cultivava com todo esmero.  Outro dia, fazendo compras no supermercado, ela se deparou com um pacotinho de ameixas e seus olhos brilharam: "Iguais as que eu comia quando era pequena". Não hesitou e colocou logo um pacote de ameixas no carrinho.  Qual não foi sua surpresa ao conferir o preço da fruta e descobrir que não se chamava mais ameixa, como ela conhecia, mas nêspera. Pegou o pacote mesmo assim e numa noite qualquer, depois de chegar do trabalho, se deliciou com as frutinhas.  Tão realizada por ter encontrado as ameixas - ou melhor, nêsperas -, ela fotografou um prato cheio delas e postou na internet, porque nos dias de hoje, se você não compartilha, é como se não tivesse vivido aquela experiência. "Eu conhecia como ameixa, da época em que eu subia direto no pé da árvore que tinha no sítio do pa...

trabalho árduo, humilde, imprescindível

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Imagina aquela senhorinha pequenininha e perfumada acordando cedo todo dia para preparar a comida do marido, que sai de madrugada para a roça. De avental na cintura e presilha no cabelo, ela coloca um bocado de arroz, feito na hora, umas colheradas de feijão incrementado com linguiça, frita um ovo e arruma tudo dentro da marmita, bem separadinho, sem esquecer da salada de alface e tomate. De sobremesa, separa uma laranja bem docinha.  O marido coloca a quentinha na bolsa, ao lado da térmica com café quente e da garrafa com água gelada, dá um beijo na testa da esposa, e espera o patrão passar na estrada, buzinando a caminhonete. Ele sobe no carro, dá bom dia, e segue para o trabalho ouvindo as notícias matinais da rádio local.  Na roça, não há distinção entre o trabalho do patrão e do empregado. Ambos estão vestindo suas roupas de campo: calça jeans surrada, camisa de mangas compridas para aplacar os danos do sol, bota e boné. Ambos carregam suas sacolas com as marmitas e a á...

bala de coco

Eu tenho muitas tias, entre as italianas, a madrinha e as tias de coração, e cada uma delas me ensinou - e ensina - algo diferente todo dia. Esta tia em especial é a mais mansa de todas. Mansa no bom sentido porque a voz doce sussurando no meu ouvido sempre trouxe bons conselhos e histórias divertidas. E a paciência - que ela tem de sobra e eu tenho de menos - para ouvir minhas lamúrias. Nós convivemos pouco quando eu era criança. Eu crescia na metrópole, ela criava sua filha única no interior. Mas lembro sempre do carinho. Do beijo leve na bochecha seguido do abraço e dos doces. Bombons, bolos, pirulitos de chocolate, bala de coco. Me lembro de férias inesquecíveis que passei na casa dela num verão. Eu, minha irmã e as primas aprontando todas no quintal de terra batida que tinha uma árvore linda e a piscininha de plástico da prima morena que queria ser loura. Foi uma semana de brincadeiras mil, de passeios de bicicleta pela pacata Cândido Mota, de gengiskan, geladinho e bolo floresta ...

hidratando

Que vida estranha tenho eu. Na primeira semana depois da volta às aulas, cheia de dúvidas sobre continuar ou não o tal curso de gastronomia, se vale a pena tanto estresse só para aprender a cozinhar, etc e tal, me deparo com o aniversário de sete anos da minha querida amiga Clarice. Foi uma tarde de cinema, balões, sanduíches e coroas de princesas. E algumas idas ao banheiro depois de muito suco de uva, o preferido da baixinha. Pois passar esse tempo com a Clari e suas amiguinhas de sete anos me trouxe a tranquilidade que eu precisava para colocar as ideias em ordem. Não me entenda mal, segunda-feira vai chegar e com ela os problemas do dia a dia, mas simplesmente assistir um desenho na telona e ver as meninas brincando num circuito maluco que tem até piscina de bolinhas me salvou de mim mesma neste sábado gelado de inverno. Pela manhã assisti uma aula muito divertida sobre técnicas de bar e até divaguei no trabalho que o professor passou em sala. Ele perguntou o que era coquetel. Eu, ...

união que dá força

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Quando penso em cooperativismo, recordo das férias no interior, na casa dos tios agricultores. Lembro de um dia ter sido convidada a acompanhar a colheita de soja, numa tarde de muito calor, em meio ao feriado de Carnaval.  Seguimos com meu tio de caminhonete até a plantação, onde os primos colhiam o grão, para levar o lanche da tarde para eles. De um lado, o mais velho, pilotando a colheitadeira. Do outro, o mais novo, dirigindo o caminhão que recebia os grãos que seriam transportados até a cooperativa da cidade.  Eu decidi subir no caminhão e me jogar no meio da soja, achando aquele ritual da colheita pura diversão. Depois que a caçamba do caminhão já estava cheia, acompanhei o primo até a cooperativa, onde a soja da família foi descarregada. Lá ela ficaria guardada até o tio decidir vender algumas sacas, quando o mercado estivesse favorável à commoditie.  Aquela pequena cooperativa nasceu para dar suporte à produção agrícola da colônia de imigrantes italianos e hoje...