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suspiro

Minha mãe sugeriu que eu escrevesse, só assim a dor no estômago me abandonaria. Eu disse que nem isso consigo fazer mais. Não sei bem porque. Este ano foi tão maluco e rápido e intenso, que só queria colocar os pés na areia e contemplar o mar. Mas não vou à praia. Ao invés disso, vou à cachoeira. Deve fazer o mesmo efeito. Pelo menos espero. Há tanto tempo que não entro em contato com a natureza que já nem sei mais se sei bem como fazer isso. Só sei que este ano precisa acabar logo e bem. Porque 2015 precisa começar com o pé direito, abraços carinhosos, sorrisos, brindes, enfim, muita energia positiva para fazer com que o ano seja alegre. Eu acredito nessas bobagens. Até tentei não acreditar, mas acredito. Sou neta da minha vó e ela é bem supersticiosa. É claro que não me apego aos mínimos detalhes como ela, mas é claro, também, que desejar momentos felizes para a virada do ano é muito mais que superstição: é normal. Que assim seja, então, energias positivas para mim, para meus pais, m...

sem noção

Não faço a menor ideia do que estou fazendo com a minha vida. Sei que tenho alguns sonhos bobos que um dia gostaria de realizar, e que a vida está ai para ser enfrentada, dia a dia, mas ainda assim, gostaria de ter algumas certezas. Na verdade, até sei o que não quero mais para mim. E que algumas vontades são muito difíceis de realizar. Mas normalmente me sinto perdida em mim mesma, tentando acertar a todo momento. Hoje estou de folga, para curtir minha mãe, que completa 59 anos amanhã. Mas acordei às sete da manhã com mensagens das colegas de universidade me perguntando sobre trabalhos da faculdade. Não dormi mais, fiquei matutando como resolver a situação e passei o dia na internet, terminando os trabalhos ao lado da colega que também estava de folga, mas não conseguiu folgar porque carrega um senso de responsabilidade tão grande quanto o meu. Onde iremos parar, eu e ela, me pergunto. Nos preocupando com quem nem sabe que existimos. Ou será que no fundo estamos nos preocupando é com ...

diário de uma aluna de gastronomia - capítulo 2

Impossíveis cubos milimétricos A primeira informação que se tem ao iniciar a faculdade de gastronomia é a importância de estar sempre uniformizado na cozinha. Unhas curtas, sem esmalte e cabelos presos são tão fundamentais quanto a calça xadrez, a camiseta, o dólmã e o avental brancos em algodão, a touca e o toque - o chapéu de cozinheiro. O dos professores é maior, mais bonito e impõe respeito. Na cozinha, todos lutam por aquele toque.  Pois bem, a segunda lição é saber empunhar a faca do chef, o principal instrumento do cozinheiro. Cabe ao dono cuidar dela com carinho, afiando-a antes de cada trabalho, com a ajuda de uma boa pedra, um tanto de força e paciência. São diferentes polegadas, materiais, cores, preços, basta escolher a combinação que mais te agrada.  Habilidades Nas aulas de habilidades, tivemos uma manhã inteira para deixar nossas facas tinindo. Primeiro recriamos o fio do aço fazendo movimentos infindáveis de vaivém de um lado e do outro da lâmina na pedra...

Diário de uma aluna de gastronomia

Amor, paciência e água Ter coragem para levar uma vontade adiante é mais ou menos como assar um pão. O segredo está na paciência. Desde pequena me vejo preparando bolos para adoçar a boca da família. Me vejo inventando molhos para o macarrão de domingo e tentando preparar o risoto perfeito para uma noite solitária. Há anos acompanho e aprendo com os programas de culinária da TV, desde os tempos da Ofélia. Aliás, é dela minha receita infalível de bolo de chocolate com rum.  Pois seria natural querer começar uma nova aventura numa faculdade de gastronomia. Tempo e vontade de sobra, uma poupança no banco e a companhia da prima dez anos mais jovem me estimularam a colocar em prática um sonho antigo.  Devaneios  A moça da poltrona marrom, que analisa meus devaneios, me alertou: se eu quiser ter sucesso na empreitada de ser uma universitária aos 33 anos e 13 anos de jornalismo terei que aprender a esperar o pão fermentar antes de colocá-lo no forno para assar e ficar f...

mi buenos aires querida

Me senti como numa cena de um filme. Era como se a qualquer momento alguém interviria na minha solidão, me sacando para fora dela e me apresentando a vida. Mas não. Foi apenas um passeio por Puerto Madero. Eu olhando para cima a cada arranhacéu que cruzava meu caminho em busca de uma medianeira. De uma falha na estrutura que me levasse a esse mundo mágico que vive em mim e do qual sou refém. Caminhando por Buenos Aires - e hoje os ares eram gelados e o vento machucava os olhos - me senti como estivesse em qualquer outra cidade do mundo, vivendo a rotina. Mas não estava na minha velha rotina e sim numa escapada que se mostrou difícil, porque este público simplesmente não liga para mim e não adianta sorrir e dizer que sou de Londrina etc e tal porque é cada um por si e a montadora por todos. Mas enfim, tive que caminhar sozinha por las calles e por medo de me perder, perdi a chance de explorar mais. Uma perda calculada já que me esperava no quarto 421 do Hilton um banho de banheira. Porq...

ameixa ou nêspera

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Quando a Heloísa era pequena, corria para o fundo do quintal roubar ameixa do pé. E como se deliciava com a frutinha de cor alaranjada e sabor pronunciado que o pai dela cultivava com todo esmero.  Outro dia, fazendo compras no supermercado, ela se deparou com um pacotinho de ameixas e seus olhos brilharam: "Iguais as que eu comia quando era pequena". Não hesitou e colocou logo um pacote de ameixas no carrinho.  Qual não foi sua surpresa ao conferir o preço da fruta e descobrir que não se chamava mais ameixa, como ela conhecia, mas nêspera. Pegou o pacote mesmo assim e numa noite qualquer, depois de chegar do trabalho, se deliciou com as frutinhas.  Tão realizada por ter encontrado as ameixas - ou melhor, nêsperas -, ela fotografou um prato cheio delas e postou na internet, porque nos dias de hoje, se você não compartilha, é como se não tivesse vivido aquela experiência. "Eu conhecia como ameixa, da época em que eu subia direto no pé da árvore que tinha no sítio do pa...

trabalho árduo, humilde, imprescindível

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Imagina aquela senhorinha pequenininha e perfumada acordando cedo todo dia para preparar a comida do marido, que sai de madrugada para a roça. De avental na cintura e presilha no cabelo, ela coloca um bocado de arroz, feito na hora, umas colheradas de feijão incrementado com linguiça, frita um ovo e arruma tudo dentro da marmita, bem separadinho, sem esquecer da salada de alface e tomate. De sobremesa, separa uma laranja bem docinha.  O marido coloca a quentinha na bolsa, ao lado da térmica com café quente e da garrafa com água gelada, dá um beijo na testa da esposa, e espera o patrão passar na estrada, buzinando a caminhonete. Ele sobe no carro, dá bom dia, e segue para o trabalho ouvindo as notícias matinais da rádio local.  Na roça, não há distinção entre o trabalho do patrão e do empregado. Ambos estão vestindo suas roupas de campo: calça jeans surrada, camisa de mangas compridas para aplacar os danos do sol, bota e boné. Ambos carregam suas sacolas com as marmitas e a á...