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diário de uma aluna de gastronomia - julho

Tradições e adaptações Na faculdade de gastronomia, estudamos culinária internacional. Aprendemos sobre as influências de cada país, seus pratos tradicionais, seus principais ingredientes e como podemos adaptar comidas clássicas de outras nacionalidades para a nossa realidade, como o estrogonofe, o macarrão a bolonhesa, o ovo mexido com bacon, o yakissoba, entre outras delícias que hoje fazem parte do cardápio do brasileiro, se não do gosto mundial. Descobri que nos países do leste europeu, o creme de leite é bastante usado na finalização dos pratos, quase sempre feito com legumes. Que na Islândia, por exemplo, se come carne de rena - eu mesma experimentei durante uma viagem que fiz ao país gelado pela FOLHA no início do ano -, que nos países escandinavos, o salmão é apreciado do café da manhã até o jantar e que em Portugal, sopa de pedra é uma iguaria, assim como os doces finos franceses, como o crepe suzette. Paella e babaganoush Aprendi a preparar pratos clássicos gregos, russ...

desacelerando

Meu pai se aposentou e, com a aposentadoria, veio a vontade de mudar um pouco a vida. Nas palavras dele, "deixá-la mais tranquila". Mas antes de parar de vez, ele tentou tocar o próprio negócio e enquanto captava clientes, recebeu uma proposta para ser consultor em uma fábrica no interior de São Paulo. Ele teria que morar na cidadezinha durante a semana e voltar para a capital aos fins de semana, como nunca tinha feito antes. Trocou seu negócio próprio por uma nova experiência e continuou me ensinando sobre superação.  Me preocupei, porque minha mãe ficaria sozinha na capital. Mas o arranjo deles deu certo e ele passou a gostar da tal Ibitinga, "a cidade dos bordados". Esse trabalho fez meu pai se sentir valorizado novamente e empolgado, como há muito tempo não se sentia. Ele me ligava e dizia que morava "no fim da cidade", a apenas 10 minutos do trabalho. Uma benção, já que nos últimos 20 anos, meu pai viajava cerca de 100 quilômetros diários para ir e...

diário de uma aluna de gastronomia

FEVEREIRO Doce e crocante Não sei ao certo quando foi a primeira vez que comi crostoli, só me lembro que em todo Carnaval na casa das tias, no interior, tinha baciadas de uma massinha doce e crocante que tornava qualquer café da tarde especial. Conforme fomos crescendo, eu, minha irmã e minhas primas trocamos as pedaladas pela cidade por uma tarde ajudando as tias na preparação da bolachinha. E assim foi criado nosso ritual carnavalesco familiar.  Tarde de domingo, depois da macarronada, a tia junta os ingredientes da massa – leite, ovos, açúcar, manteiga, pinga, raspas de laranja e farinha até dar ponto – amassa bem até a mistura ficar bem homogênea e prepara o cilindro. Farinha à vontade e gira a manivela daqui, puxa a massa dali até ficar fininha, fininha. Depois, estica as massas sobre toalhas na mesa da sala de jantar, da cozinha, na cama da tia...e a meninada começa a dar forma à bolachinha. Cortamos diversos retângulos e com a faca fazemos dois risquinhos em cada um del...

preguiçosa

Eu sempre fui meio preguiçosa. Quando pequena, inventei que a água da piscina era muito quente e o vapor me sufocava só para fugir das aulas de natação.  Até tentei jogar vôlei na escola, mas era uma pata.  Também deixava as lições de casa e os trabalhos de escola para a última hora e enlouquecia minha mãe, que tinha que me ajudar a terminar para que eu não levasse um zero.   Preferia ver Changeman na televisão.   Só fui tirar uma nota vermelha no primeiro colegial. E foi justo um zero, em desenho geométrico. Nunca contei para a minha mãe, é claro, mas ela precisou se acostumar que eu não teria mais aquele boletim azulzinho azulzinho porque física, química e geometria me davam arrepios. Como me dão até hoje.  Eu gostava mesmo era de viajar nas aulas de história do meu professor palmeirense preferido e depois da minha professora de sobrenome Brazil, que era irmã do professor de literatura e um dia leu minha mão numa festa junina da escola. Ela disse que eu me c...

melancolia

Eu sonhei contigo esta noite. Foi um sonho maluco, como têm sido meus sonhos ultimamente - fruto dos efeitos do rescue. Mas no sonho, como na vida real, você foi embora sem deixar rastros. Desta vez eu me desesperava porque tinha perdido a câmera fotográfica com fotos da sua visita. Eu procurei por toda parte - engraçado que a procura se deu num dos quartos de visita da antiga casa da minha vó, que não existe mais. Duas saudades num só sonho. Talvez você tenha sido o personagem principal do meu sonho porque vi uma foto sua ontem. Ou porque vira e mexe você volta ao meu pensamento. E como eu queria te esquecer. Seria importante para eu seguir meu caminho. Mas, por alguma razão que desconheço, você ainda está aqui. Tenho a sensação de que nunca partirá. Acordei com o peito apertado e vontade de chorar. Fui fazer faxina ao invés disso. Ouvindo uma playlist que tinha um pouco de você. Senti vontade de chorar com a vassoura na mão, mas não chorei. Cantei bem alto. Agora estou com vontade de...

no lugar do outro

Todo mundo tem uma opinião sobre a vida da gente. A gente opina sobre a vida do outro o tempo todo. Às vezes a gente pede opinião, outras precisa ouvir o que o outro tem a dizer. Eu tomei uma decisão que diz respeito só a mim, mas um monte de gente lamenta por mim, o que torna tudo mais difícil. Inclusive por isso foi dolorido decidir. Mas uma vez decidida, coloquei na cabeça que preciso levar meus desejos adiante, independentemente da vontade alheia. Porque a gente sempre quer o que a gente acha que é melhor para o outro, e quase nunca se coloca no lugar da pessoa. Estou tentando exercer essa troca e pensar porque algumas pessoas agem como agem. Nem sempre é fácil aceitar, mas é preciso. Por amor e respeito ao próximo, especialmente. Nos dias em quem estive de molho, ouvi diversas opiniões diferentes sobre como deveria ter agido para não deixar a situação chegar ao ponto em que chegou. E quer saber, dessa vez tenho certeza de que fui adulta o suficiente para escolher o melhor caminho ...

doente

Eu tomei a decisão depois de muito pensar: não sou mais uma universitária. Tranquei a matrícula do segundo ano de gastronomia e me matriculei num curso de confeitaria com aulas apenas duas vezes por semana. Também me matriculei em aulas de flamenco, que há anos faziam parte dos meus planos. Desde que escrevi uma matéria sobre como a flamencoterapia havia mudado a vida de senhorinhas londrinenses, que reconquistaram seus corpos e sua autoestima dançando. São duas novas apostas que irão cobrar muito menos de mim este ano, assim espero. E desde que decidi desacelerar, meu corpo tem me dado respostas de que foi a melhor decisão a tomar este ano. Porque se eu não tivesse readequado meus sonhos (e não desistido, como alguns podem pensar), eu não sei como estaria agora. Pela primeira vez na vida - isso mesmo, primeira - eu estou doente. Um estado físico - e psicológico - desconhecido para mim até então. E estas últimas semanas têm sido das mais difíceis. Precisar parar, "internar-se...