Postagens

cadê minhas jujubas

Quando a gente tem uma vida confortável, com família estruturada e caminho quase que previamente traçado, a impressão que dá é que lá pelos 20 anos a gente tem a vida resolvida: é só arrumar o melhor emprego possível na profissão em que a gente se formou, juntar dinheiro para comprar a casa, o carro, encontrar o amor da vida, namorar, viajar, noivar, casar, ter filhos, ser promovido e ir levando até formar os filhos, aposentar, mimar os netos e esperar pelo fim. Por muito tempo esse foi o modelo de vida dessa nossa humanidade. Quem saía um pouco do script era julgado. Condenado. Passava a vida como um rejeitado. Aquele que deu errado, coitado. A ovelha negra da família. Todo mundo se preocupa com ele. O que vai ser dele, meu Deus? Mas daí a gente supera o bug do milênio e uma tal de internet nos conecta com quem nunca conheceríamos se ficássemos lá, vivendo a vida como pregam os tradicionalistas. A sensação é de que a gente pode tudo e não deve perder tempo. Eu, no meio disso tudo, n...

a arte de correr na chuva

A única pessoa que me julga sou eu mesma. Cada dia que passa eu penso mais sobre equilíbrio e viver no agora.   E como essa é a nossa missão de vida inteira. Cada escolha que a gente faz impacta diretamente nestas duas variáveis: equilíbrio e agora. Ontem, por exemplo, eu estava exausta do dia intenso de trabalho - gratidão por isso - e só queria chegar em casa e colocar os pés para cima. Mas tinha recebido uma encomenda e precisava adiantá-la. Então escolhi começar o pilates outro dia. Não sem muito debater internamente: quando vou começar a cuidar da saúde? Quando farei o que tanto aconselho os demais a fazerem? Eu não consegui. E bati na porta da professora avisando que só começarei em setembro. Outro embate: com comida na geladeira, uso ou não o cupom do Ifood para pedir um hambúrguer? Usei. Comi. E fui ao segundo turno de trabalho: uma receita de brownie e uma de cookie pro dia seguinte, além da encomenda. E coloquei o cesto inteiro de roupa suja para lavar. Depois de duas h...

nova linguagem

O que de mais interessante absorvi da palestra da amiga sobre comunicação não-violenta é que estou no caminho certo do autoconhecimento. E sim, é um caminho muito duro. Muito duro mesmo. Todo dia a gente esbarra numa dificuldade. Todo dia a gente aprende. E só assim conseguimos nos relacionar melhor com o outro. Uma pergunta muito pertinente que a amiga fez ontem dizia: “Mas você quer mesmo se conectar com o outro?”. Às vezes a gente não quer. A gente só quer seguir a vida, um passo de cada vez. Não dá para se conectar com cada indivíduo que passa em nosso caminho. Mas dá para respeitar todos. Como ela ensinou, dá para buscar entender as necessidades de cada um: a nossa e a do outro. É daí que surge ou não a conexão. O pedido é uma mera finalização de algo que começou no primeiro olhar: na observação. Por isso acredito que quando o santo não bate, simplesmente não dá pra insistir. Isso não quer dizer desrespeitar. Lidando com público diariamente nos últimos 72 dias, consigo sorrir ma...

angústrias x desangústias

Ela me pediu que fizesse um desenho. Já era quase fim de sessão, eu tinha ido dormir tarde, acordei cedo e trabalhei o dia todo em pé. Estava cansada. “Desenha uma ‘menininha’”, ela disse. Então fiz o clássico: cabeça em formato de “a”, sendo as perninhas do “a” os cabelos; palitos nos lugares de pernas e braços, bolinhas para mãos e pés, olhos redondos indicando que ela olhava pro lado, um nariz arrebitado e uma “meia boca” esquisita. Entreguei. Ela sorriu: “Melhora isso ai”. Acrescentei um vestido: dois triângulos, um menor representando o busto e um maior a saia. Os gambitos estavam bem abertos. Eu ri. “Não me pede para desenhar que não gosto.” “Nem quando era criança?” “Não. Sempre fui péssima em educação artística.” “Já com as palavras!”, ela brincou, analisando a obra de arte, inspirada no último desenho feito pela Isa, que está colado na minha geladeira. Ela procurou em sua pasta um outro desenho que eu havia feito tempos atrás, em outra sessão. Ao encontrá-lo, gargalhou: “É, nã...

coisa de mulher

Enquanto tem presidente dizendo que fraquejou ao ter uma filha, enquanto tem ministra dizendo que mulher tem que ser submissa no casamento, enquanto tem homem dizendo que futebol feminino dá sono, enquanto o Facebook diz que feminismo é mimimi (o que essa pessoa tá fazendo na minha timeline mesmo?), eu reparo que onde trabalho só tem mulher no comando. Isso mesmo. Das oito lojas abertas aqui no primeiro piso do edifício, seis são administradas por mulheres. E a maior parte delas por mulheres que trabalham sozinhas ou com outras mulheres. Que pensam seus negócios, que compram, vendem, limpam, organizam, que levantam cedo, vestem o sorriso e vêm ganhar o pão. Algumas são mães e vejo suas crianças correndo saudáveis pelo saguão enquanto elas atendem seus clientes. Eu acho lindo. Acho verdadeiro. Sem falar nas meninas da limpeza, uma simpática equipe feminina que se completa com as funcionárias da portaria, lindas em seus saltos altos, cabelos escovados e sorrisos largos no rosto, aguent...

buendía

"Boa parte da vida passamos coletando pedaços de nós, até nos sentirmos mais completos." Hoje dou mais um passo. Gigante. Daqueles que dá um frio na barriga. A última vez que senti esse friozinho tinha 22 anos, uma mala cheia de roupas - e sonhos - e uma vaga de repórter me esperando no jornal que já foi o quinto maior do País. Dois anos depois de formada. Tive as primas que me acolheram, uma de cada vez, e me ajudaram a aprender a viver sem colo de mãe e pai. Essa parte foi fácil porque sempre fomos como irmãs. Aplacou o medo. Mas todo o resto deu trabalho. Foi quase uma década de reportagem até a primeira promoção. Muito aprendizado. Diário. Principalmente sobre minhas fragilidades e capacidades. Foram mais uns cinco anos editando e liderando equipes das mais diversas. Muita ansiedade. Escrevendo sobre assuntos desconhecidos, num meio machista. Um desafio que me levou ao outro lado do mundo, olha que privilégio. Me fez subir montanhas de gelo. E me ajudou a cri...

o necessário

"Nós não podemos odiar o necessário, nós devemos amá-lo!" Ouvi essa frase de um personagem experimental enquanto assistia a uma peça de teatro numa sexta-feira à noite e precisei anotar para relembrar vez ou outra. Achei-a linda. E necessária. Os últimos dias foram intensos. De cabeça fervilhando por conta da amiga ansiedade. Foi tudo tão intenso que até voltei a dormir no sofá. Uma noite dessas, acordei no meio da madrugada com o barulho da tevê. E de repente, percorrendo a sala com os olhos, meu coração acelerou. E comecei a chorar. O pensamento era de total fracasso e a sensação, de abandono. De completa solidão. Quase um pânico. "Como cheguei até aqui?" "Onde estarei quando meus pais já não estiverem mais?" "Quem olhará por mim?" "Será que algum dia deixarei de ser filha?" Então foquei na tevê, respirei fundo e me mantive acordada, prestando atenção numa outra história qualquer. Eventualmente me acalmei e fui para a cama. ...