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você não sabe nada

Sempre que alguém senta na frente do balcão, fuscas contornam a rotatória. Parece bobagem mas você os vê passar, enquanto escuta a pessoa falar. Alguém chega contando histórias que muitas vezes não fazem o menor sentido. Depois que a pessoa vai embora, você se pega repensando o que ouviu e tenta associar aquelas ideias à sua vida. Sente que tem algo a aprender. Ainda não sabe bem o que. Fuscas. Porque fuscas eu não sei. Só sei que desde que você brincou de ver fuscas no meio do trânsito para distrair a pequena impaciente sentada no banco de trás do carro, se vê contando os redondinhos pelo caminho. Sempre que vê um, não importa a cor, o sorriso vem. É como se o dia não pudesse dar errado uma vez que um fusca cruzou seu olhar. Sua idiota garantia de uma felicidade que nem sempre vem. Cada um tem sua superstição particular: fazer o sinal da cruz sempre que passar por uma igreja, pedir para Maria passar na frente antes de sair com o carro, dizer mantras assim que acorda para que...

dilema

Angústia, essa carta é para você. Minha companheira de longa data. Aquela que aparece inesperadamente e fica por uns bons dias até ir embora sem se despedir. Angústia, você veio me visitar de novo, mas creio que dessa vez não é sem motivo. Se bem que sempre tem um motivo, eu é que demoro a descobrir. Você quer me dizer alguma coisa mas não sabe como. Não encontra as palavras. Então você me deixa com vontade de chorar por causa do aperto no peito. Porque tá tudo como deveria e esse aperto insiste em apertar. Angústia, eu já respirei fundo para facilitar sua partida. Eu já disse mantras antes de levantar da cama pela manhã. Eu já repeti os mesmos mantras a caminho do trabalho e ainda assim você insiste. Do que você precisa para seguir seu caminho, angústia? Me deixa sentir paz. Deixa minha mente quieta um pouco e meu coração manso. Eu sei que às vezes você quer que eu pegue na sua mão para me mostrar o caminho, mas por que eu não posso caminhar sozinha de vez em quando? Angústia, você ...

reprogramando

Já ouviu falar em reprogramação de crenças negativas? Não é nada alternativo não. É uma técnica usada nos consultórios de psicologia, pelo que entendi. Depois de dez anos me ouvindo, a moça da poltrona marrom cansou. Disse que estou repetitiva. E quis testar outras técnicas comigo. Aparentemente tenho só mais uma questão importante a resolver. Para as dezenas de outras neuroses eu já tenho ferramentas para elaborar o entendimento sozinha. Segundo ela. Se bem que tenho me sentido mais confiante mesmo para encarar minhas dificuldades. Não quer dizer que não doa, só quer dizer que agora sei porque dói e quando estou bem nem coço mais de ansiedade. Mas, enfim, reprogramação de momentos tristes. Primeiro precisei recriar na mente um momento feliz que servirá de lugar seguro onde devo me refugiar quando o bicho papão aparecer. Depois, preciso relembrar a cena triste que me causou trauma e elaborar como me sinto. Nesse momento, a psicóloga inicia uma série de estimulações visuais por meio...

calendário

Dia 7 é um dia importante. É meu dia. Mas dia 29 também se tornou um dia inesquecível para mim. Assim como o dia 3. São três datas marcantes, assim como um dia foi o dia 6. Hoje, 3 de outubro, completo quatro meses à frente do Buendía Café. Uma empreitada que caiu no meu colo quando eu mais precisava e que chegou para desconstruir tudo o que eu sabia sobre mim. Se eu me achava capaz de qualquer coisa, hoje enxergo meus limites muito mais claramente e não tenho mais vergonha de admitir quando estou cansada. Ou quando erro. Não errei ao assumir sozinha o comando deste pequenino café. Mas não é nada fácil: todo dia é uma vida diferente. Neste espaço posso exercitar minhas vocações diariamente: esperar e ouvir o outro são duas delas. Eu sou uma boa ouvinte, apesar de gostar de dividir também. Mas quem senta no outro lado do balcão pode saber que eu vou prestar atenção na história a ser contada. Já ouvi de tudo por aqui, histórias muito mais inusitadas em cinco minutos de conversa do que ...

cartinha

Já pensou em quanta coisa nosso cérebro é capaz de processar? Tudo o que ele é capaz de fazer em um rápido segundo para nos manter vivos? Enquanto estou aqui pensando no que escrever, enquanto estou tocando as teclas do computador, enquanto estou lendo e corrigindo erros de digitação ao mesmo tempo em que percebo o que acontece ao meu redor, o cérebro está trabalhando. Ele trabalha tanto e ininterruptamente que às vezes precisa de um descanso. Mas nem quando dormimos ele para realmente. Continua processando tudo o que aconteceu durante o dia, relacionando tudo com nossa memória. Ele não para nunca. E é capaz de produzir as ideias mais malucas e as mais sensatas. Eu estava lendo um texto em inglês e pensando como é fácil para mim hoje entender essa língua que um dia eu não conhecia. Como é fácil falar mesmo não sendo minha língua mãe. Como é fácil ver um filme sem legendas. E me pego pensando que um dia não foi tão fácil assim. Um dia eu tive que decorar palavras e responder inúmer...

reflexões

Ontem foi um dia tão esquisito. Tanta coisa diferente aconteceu que eu custei a dormir ainda que meu corpo estivesse cansado. Eu apelei para mais um capítulo do dorama da vez, mas fiquei pensando mais nos dramas cotidianos. Tem tanta coisa acontecendo na vida das pessoas ao nosso redor que a gente não faz a menor ideia. Numa conversa sobre pauta, uma amiga acabou desabafando toda a dificuldade que enfrenta diariamente desde que se tornou esposa e mãe. De fora, me parece que ela tem uma vida bastante confortável e que está feliz com o rumo das coisas, mas por dentro não é bem assim. Eu gostaria de ouvi-la, de saber o que ela tem feito, como tem feito, onde encontra prazer para aplacar a tristeza. Porque por mais que nossas vidas sejam completamente diferentes, o fato de sermos mulheres nos une. Tudo para a mulher é mais difícil. Simplesmente porque a gente sente. E pensa sobre esse sentimento. Coloca na balança prós e contras antes de decidir. Me parece que para os homens é mais fác...

sobre amar

Eu não sei o que é o amor romântico. Eu imagino o que seja, mas viver, eu nunca vivi. Eu conheço o amor de mãe e pai. De irmã. De avó. De tia. De tio. Eu conheço o amor de primos. O amor de madrinha. E o dos amigos. Mas aquele amor que faz o estômago embrulhar e que te deixa sorrindo à toa eu não conheço. Eu até já senti, mas foi um sentimento solitário. Então, não devia ser amor. Imagino que o amor romântico é construído a dois. Não adianta nada um sentir e o outro não. Imagino. É só o que eu posso fazer em relação ao amor romântico: imaginar. Recebo mil conselhos, todo mundo dizendo que você precisa estar disponível para recebê-lo e eu sempre achei que estivesse. Bem disponível. Mas a verdade é que nunca estive. Sempre vivi na imaginação onde não passava vergonha e tudo terminava como no último capítulo de novela. Não. Essa não é a realidade. A realidade é voltar todo dia para casa sozinha, deitar no meio da cama e se esparramar. Fazer comida para um só. Lavar só a minha roupa. Não...