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um recado para Isa

Oi Isa, aqui é a Mari. Você não imagina como fiquei feliz em encontrar seu recadinho salvo na tela de entrada do meu computador. Eu não uso muito esse computador, então quando decidi abri-lo hoje para organizar as planilhas das contas mensais e efetuar os pagamentos com o dinheiro que teve que sair da poupança porque o café está fechado há 17 dias, você pode imaginar a surpresa que tive ao ver esse arquivo. Cliquei sem saber o que iria encontrar porque já não me lembrava dele. Mas assim que li, lembrei na hora. Você escreveu no dia em que ficou aqui em casa com a sua madrinha. As duas juntas no dia das crianças, a sua madrinha trabalhando no computador, enquanto eu estava lá no café. No mesmo dia em que a minha irmã, sua dinda, tinha vindo a Londrina conhecer o cafezinho. Vocês acordaram cedo, se trocaram e foram tomar café comigo. Quer dizer, vocês comeram e eu segui servindo pão de queijo aos meus clientes de todo dia. Vocês, então, pegaram meu carro e voltaram para casa. Foram almo...

chi lo sa

Sentir. Do latim: sentire. Sentir: verbo transitivo direto. Perceber através dos sentidos, pressentir, adivinhar, intuir, apreciar. Ser afetado. Sofrer. Sentir: verbo transitivo direto e pronominal. Lastimar a ausência, lamentar, ofender-se. Sentir: verbo intransitivo. Sensibilidade. Pesar. Sentir: verbo pronominal. Condição. Ter consciência do próprio estado. Imaginar-se, julgar-se. Sentir: substantivo masculino. Entender. Sentir. Sentir tão perto. E tão longe às vezes. Sentir. Um sorriso roubado. Um olhar disfarçado. Un pensiero. Sentir a pele. Sentir os pelos da pele. Sentir o beijo estalado. Sentir um mal no estômago sempre que acaba. Saudade. Sentir é para os fortes. Sentir é para os iluminados. Corajosos. Sentir dói. Sentir leva a loucuras. Palavras. Sonhos. Desabafos. Choro. Desilusão. Amor. Alegria. Gioia. Sentir a cicatriz do que doeu um dia e hoje já não dói mais. Sentir a inteligência. Tudo o que se aprendeu e se guardou para ser usado numa conversação num dia qualquer. Sen...

tão longo que ninguém vai ler

Eu sempre ouvi quando pequena que precisava de psicólogo. Que devia ter alguma coisa de errado comigo e que eu precisava de ajuda. Eu passei a infância sentindo uma timidez tremenda, uma vergonha de ser quem eu era e isso incomodava todo mundo ao meu redor e a mim também, porque eu vivia tendo que me explicar.  Eu me tornei mulher muito cedo, quando ainda era uma criança. E isso sempre me incomodou. A ponto de odiar meu corpo. Odiar sair de casa. Odiar me arrumar. Eu achava que todo vestido, saia e sandália que eu colocasse chamaria muita atenção e isso era tudo o que eu não queria. Então passei bons anos me escondendo em camisetões e shorts de ginástica e tênis all star. Eu me escondia atrás do meu lindo, louro e liso cabelo comprido que tomava as costas e deixava um bronzeado meio estranho quando eu ia para a praia. Era a única coisa que eu gostava em mim: meu cabelo liso, que dava um trabalhão para desembaraçar. Fora isso me achava bem fora do padrão.  Estatura baixa, se...

querido diário

Eu queria ter coragem de te dizer algumas verdades. Mas seriam as minhas verdades não as suas. Não faria diferença para você. Tanto quanto o que você me diz, que sempre muda meu jeito de me ver e de ver o mundo. Eu sempre aprendo. Mas sinto que posso ensinar também, se você deixar. Então eu durmo até tarde para não precisar encarar a realidade de uma rotina focada no trabalho. Faz bem porque eu descanso o corpo, mas a mente segue trabalhando. E resolvendo no sonho o que não tem coragem de resolver na realidade. Ou talvez não seja falta de coragem, seja falta de vontade de encarar que já deu. Porque o conforto grita mais alto que a autoestima nesse caso. Para escapar, decidi ver a nova série adolescente e pensei: que bela metáfora para explicar a ansiedade que corroe alguns desde a juventude. E acompanha outros pelo resto dos dias. Explodir tudo quando não aguentamos poderia ser uma saída para aguentar o barulho interno. Mas dai a alternativa proposta pela personagem adulta é escrever...

sobre um carnaval

Você precisa de psicólogo. Parece que sua terapia não está funcionando. Se você tivesse superado, você não estaria falando nisso ainda. Já aconteceu há tanto tempo, mas parece que você não esqueceu, insiste em falar nisso. A vida é uma merda. A vida é difícil. Você tem que ser sua própria medida, um fim em si mesmo. Deixa pra lá. Vire a página. Cada luta é individual. No fundo, ninguém quer mesmo saber como você está. Têm uma ideia já feita do que acham que você será para a vida toda com base no que foi até agora e imaginam que você nunca vai mudar de verdade. Talvez a gente nunca mude mesmo. E passe a vida lamentando pelo que foi. Passe a vida procurando culpados. Passe a vida gritando, mesmo quando quer só entender como chegou até aqui. Ninguém nunca poderá entrar debaixo da pele do outro para sentir o que o outro sente. Na verdade, ninguém muda o outro. E a beleza está em aprender um pouco mais todo dia, em ser melhor hoje porque o segundo atrás já é passado. Faça terapia. Fale. B...

drops

Uma carta. Mas de que adianta se a resposta veio antes. De que adianta dizer repetidas vezes. Será sempre não. Então soca a porta do freezer que não fecha direito. Mata a trilha de formigas que insistem em passear pelo armário da cozinha, sem rumo. Toma uma taça de vinho. Come três pedaços de pizza de abobrinha, sua favorita. Liga na novela bobinha e tenta desligar. Será sempre não. Sempre. Não. Ele nem titubeou e ela, emudeceu. Tá tudo bem? O outro perguntou. Sim, claro. Só estou cansada, ela respondeu, querendo partir. Foram dois litros de chope no almoço. Um calor danado de meio de verão. Aquele bafo. Ela só pensava em ir pra casa. Se esconder no quarto escuro. Fechar a janela, a cortina, ligar o ventilador e cair no sono. Pra esquecer. Ele trabalha até tarde, então ela espera ele ligar. Todo dia. Enquanto isso, lê. A última história contava sobre casais apaixonados que se casaram durante a segunda grande guerra. Elas, australianas. Eles, ingleses. E como o governo da r...

cupcake de cenoura e brigadeiro

Eu cruzo a avenida todo dia. Manhãzinha e tardezinha. Eu vejo os ônibus descarregarem trabalhadores enquanto eu mesma me levo pro serviço. Eu vejo gente apressada, olhando pro celular. Gente comprando o pão francês pra patroa. Eu vejo gente correndo em volta do lago pra ficar em forma. Eu vejo gente tão tranquila que até tira o sapato no ponto, enquanto a condução não chega. Tem dias que vejo ele descendo a avenida. Em outros, ele está subindo.  E eu vejo a placa de amor à cidade à esquerda e os rapazes praticando pólo aquático no lago à direita. Meu carro sempre engasga nesse trecho de subida. Achei que era um problema meu, mas outro dia o amigo contou que o carro dele também engasga por ali. Ou a pista precisa de reparos ou precisamos trocar de carro. Pensando bem, acho válidas as duas hipóteses. Eu estava cansada e fui pra casa tirar um cochilo no meio da tarde. Sim, um cochilo. Sim, no meio da tarde. Sim, porque tem alguém no meu lugar no serviço. Alguém que eu contratei e a ...