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o dia em que encontrei o convite do meu aniversário de 1 ano num livro de Simone de Beauvoir

Depois de mudar do apê do bosque, onde tinha vivido os últimos 13 anos e quase toda a pandemia, para um apartamento com vista para o Vale Verde, nos "Jardins londrinenses", em outubro do ano passado eu resolvi passar uns dias no apartamento dos meus pais, em São Paulo. Acabei ficando por lá dois meses. Minha irmã também estava lá. Sua casa estava em reforma e ela e o marido mudaram-se pro Novo Mundo por um ano. Dormiram no meu quarto de adolescente enquanto eu dormi no quarto dela que, de dia, se transformava em escritório. Minha irmã trabalhou muito enquanto estive lá. Eu chorei muito. Fuçando no armário cheio de livros da minha mãe, resolvi começar a ler Simone de Beauvoir. Nunca tinha lido. Nem imaginava que minha mãe tinha um livro com essa temática. Então comecei a ler, devagar.  Estava fazendo tudo devagarinho em outubro passado, com uma dose de vacina no braço e máscara no rosto. Saí de casa para encontrar as amigas  pela primeira vez em quase dois anos de pandemia. ...

Ciclo

Depressão. Rejeição. Superação. Depressão. Rejeição. Superação... Euforia. Simpatia. Alegria.  Euforia. Simpatia. Alegria... Arrependimento. Entendimento. Acolhimento.  Arrependimento. Entendimento. Acolhimento... Desamor. Contrapor. Amor.  Desamor. Contrapor. Amor! A vida é um ciclo. Um ciclo vicioso. Vicioso porque se repete. Se repete porque não encaramos. Não encaramos porque dá medo. Dá medo porque nos deixa vulneráveis. Vulneráveis porque somos imperfeitos. Imperfeitos e humanos. Humanos e frágeis. Frágeis, mas corajosos. Corajosos, mas responsáveis. Responsáveis e maduros. Maduros e empáticos. Empáticos e amorosos. Amorosos e amigos. Amigos e companheiros. Companheiros na alegria e na tristeza. Na tristeza que passa. Passa porque a vida é um ciclo. Um ciclo vicioso.

Páginas e páginas de culpa

Guardo no fundo do armário uma caixa de cartas que tenho recebido desde 1989. São 33 anos de lembranças. Todas boas. Cartões de aniversário, de Natal, de formatura. Folhas de caderno com dezenas de recadinhos das amigas do primário, do colegial, da faculdade, do jornal. Muitos envelopes feitos à mão, com detalhes coloridos, adesivos. Tem carta das primas, das amigas, da mãe, da irmã, da vó. De quem um dia foi família e hoje já não é mais. Mas tem uma única carta, de quatro ou cinco páginas, que eu guardei só para lembrar que um dia eu também já magoei muito alguém. Uma única carta de uma pessoa que abandonei há 23 anos. Linhas que hoje estão quase ilegíveis.  Nesta carta, que hoje eu fui reler e descobri que o tempo a deixou quase ilegível, eu sou descrita como a pior das amigas. Enquanto ela provou sua amizade para mim de inúmeras maneiras, eu só fiz magoá-la. E ela sofreu tanto, que precisou desabafar nesta carta, que mais parece um diário dos dois anos em que fomos "amigas...

triste né?

Eu estou triste. Essa é a palavra que melhor define o que sinto agora: tristeza. Essa semana eu trabalhei, eu conversei uns minutos com algumas pessoas, cantei músicas velhas bem alto, vi filmes e séries tristes e quase botei fogo na casa. E fiquei triste. Fui fazer um pão na chapa e esqueci a frigideira no fogão aceso. Baixei o fogo, vi que o pão estava bom e coloquei no prato. Passei cream cheese e fui pra sala. Duas horas depois sinto cheiro de queimado. Achei que era o lenço que coloquei sobre a lâmpada para escurecer a sala, mas não era porque a lâmpada de led não esquenta. Fui para a cozinha buscar a toalha de banho e vi a frigideira sobre a chama do fogão ainda acesa. Não acreditei que tinha esquecido. E fiquei triste. Como também não acreditei que esqueci de produzir e entregar um pedido essa semana. Se a amiga não avisa, o filho dela estava esperando a bolachinha até agora. O que deu errado? Eu fiquei triste. Na noite passada fui dormir às 2h30 da madru...

um recado para Isa

Oi Isa, aqui é a Mari. Você não imagina como fiquei feliz em encontrar seu recadinho salvo na tela de entrada do meu computador. Eu não uso muito esse computador, então quando decidi abri-lo hoje para organizar as planilhas das contas mensais e efetuar os pagamentos com o dinheiro que teve que sair da poupança porque o café está fechado há 17 dias, você pode imaginar a surpresa que tive ao ver esse arquivo. Cliquei sem saber o que iria encontrar porque já não me lembrava dele. Mas assim que li, lembrei na hora. Você escreveu no dia em que ficou aqui em casa com a sua madrinha. As duas juntas no dia das crianças, a sua madrinha trabalhando no computador, enquanto eu estava lá no café. No mesmo dia em que a minha irmã, sua dinda, tinha vindo a Londrina conhecer o cafezinho. Vocês acordaram cedo, se trocaram e foram tomar café comigo. Quer dizer, vocês comeram e eu segui servindo pão de queijo aos meus clientes de todo dia. Vocês, então, pegaram meu carro e voltaram para casa. Foram almo...

chi lo sa

Sentir. Do latim: sentire. Sentir: verbo transitivo direto. Perceber através dos sentidos, pressentir, adivinhar, intuir, apreciar. Ser afetado. Sofrer. Sentir: verbo transitivo direto e pronominal. Lastimar a ausência, lamentar, ofender-se. Sentir: verbo intransitivo. Sensibilidade. Pesar. Sentir: verbo pronominal. Condição. Ter consciência do próprio estado. Imaginar-se, julgar-se. Sentir: substantivo masculino. Entender. Sentir. Sentir tão perto. E tão longe às vezes. Sentir. Um sorriso roubado. Um olhar disfarçado. Un pensiero. Sentir a pele. Sentir os pelos da pele. Sentir o beijo estalado. Sentir um mal no estômago sempre que acaba. Saudade. Sentir é para os fortes. Sentir é para os iluminados. Corajosos. Sentir dói. Sentir leva a loucuras. Palavras. Sonhos. Desabafos. Choro. Desilusão. Amor. Alegria. Gioia. Sentir a cicatriz do que doeu um dia e hoje já não dói mais. Sentir a inteligência. Tudo o que se aprendeu e se guardou para ser usado numa conversação num dia qualquer. Sen...

tão longo que ninguém vai ler

Eu sempre ouvi quando pequena que precisava de psicólogo. Que devia ter alguma coisa de errado comigo e que eu precisava de ajuda. Eu passei a infância sentindo uma timidez tremenda, uma vergonha de ser quem eu era e isso incomodava todo mundo ao meu redor e a mim também, porque eu vivia tendo que me explicar.  Eu me tornei mulher muito cedo, quando ainda era uma criança. E isso sempre me incomodou. A ponto de odiar meu corpo. Odiar sair de casa. Odiar me arrumar. Eu achava que todo vestido, saia e sandália que eu colocasse chamaria muita atenção e isso era tudo o que eu não queria. Então passei bons anos me escondendo em camisetões e shorts de ginástica e tênis all star. Eu me escondia atrás do meu lindo, louro e liso cabelo comprido que tomava as costas e deixava um bronzeado meio estranho quando eu ia para a praia. Era a única coisa que eu gostava em mim: meu cabelo liso, que dava um trabalhão para desembaraçar. Fora isso me achava bem fora do padrão.  Estatura baixa, se...