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sempre em frente

O melhor amigo do meu pai da faculdade de engenharia se foi. Meu tio. Padrinho da minha irmã. Compadre dos meus pais, que são padrinhos do filho deles. Eu lembro que sempre me senti muito acolhida e amada quando encontrava a família Mendes, ainda que a gente se visse pouco. Uma vez por ano, talvez duas, no máximo. A amizade dos meus pais com os padrinhos da minha irmã é daquele tipo que quando se encontra é como se nunca tivesse deixado de se ver. O tio era professor. Falava alto, era muito inteligente, gostava de política e escrevia artigos de opinião para os jornais. Fazia amizade com os alunos e queria mudar o mundo com as suas ideias. A tia sempre junto. Professora divertida, carinhosa, inteligente, extremamente generosa. Sempre trabalharam muito. Seus filhos (meus primos) lindos, inteligentes, carinhosos, generosos como os pais. Único defeito da família é serem corintianos. O tio se foi depois de uma batalha contra uma doença degenerativa que lhe tirou a independência motora. A ca...

uma boleira de vidro

  Minha vó comemorou 90 anos em dezembro. Reunimos alguns sobrinhos, uma cunhada, amigas, filhos e netos para brindar a vida da Therê com chope e crepe.  Ela tem saúde: caminha, troca de roupa, arruma a cama e gosta de dizer que ainda consegue lavar os pés. Faz tudo sozinha. Minha vó dança! Estamos sempre alimentando a vó porque ela diz que perdeu o paladar. Que só come para viver. Que velho perde a validade. Sua memória está travessa: foge e volta e foge e volta. E às vezes a confusão se instala. Meus pais decidiram que ela vai morar com eles na praia. Eles alugaram o apartamento da capital e se mudaram para a praia, a duas quadras do mar. Lá tem um quarto com um colchão novinho para a vó que ajudei a escolher. Tem uma tevê que ajudei a sintonizar os canais, tem o radinho com o cd do Tonico e Tinoco e fotos de todos nós. Não é a casa dela. Todos sabemos. Principalmente ela. Ao mudar, minha mãe trouxe o máximo que pode de coisinhas da casa da vó para ela se reconhecer no ...

balanço

Eu gosto de escrever para significar tudo que me acontece. E para poder ler depois e recordar, repensar. Então vou escrever sobre meu 2022 para ler ano que vem e lembrar como foi que vivi no primeiro ano pós-pandemia. Este ano, eu resolvi voltar a ser jornalista em tempo integral. Eu fiz as contas e mandei currículos e me programei. Disse pra mim mesma: qualquer coisa eu vendo o carro. Já em fevereiro recebi duas propostas que não só tiraram minha zona de conforto na escrita como me ensinaram novas possibilidades de exercer a profissão. Em alguns momentos eu pensei em desisitir porque não me sentia boa o suficiente. Mas ainda bem que eu insisti. Foram dois projetos de branding para duas grandes marcas nacionais, em que conheci uma equipe carioca cheia de conteúdo e sal. Em outra frente, escrevi copys para candidatos a deputados, numa primeira tentativa de trabalhar para políticos. Em ambos os trabalhos senti medo de errar e cheguei a achar que seria dispensada. Mas depois de concluir ...

o dia em que encontrei o convite do meu aniversário de 1 ano num livro de Simone de Beauvoir

Depois de mudar do apê do bosque, onde tinha vivido os últimos 13 anos e quase toda a pandemia, para um apartamento com vista para o Vale Verde, nos "Jardins londrinenses", em outubro do ano passado eu resolvi passar uns dias no apartamento dos meus pais, em São Paulo. Acabei ficando por lá dois meses. Minha irmã também estava lá. Sua casa estava em reforma e ela e o marido mudaram-se pro Novo Mundo por um ano. Dormiram no meu quarto de adolescente enquanto eu dormi no quarto dela que, de dia, se transformava em escritório. Minha irmã trabalhou muito enquanto estive lá. Eu chorei muito. Fuçando no armário cheio de livros da minha mãe, resolvi começar a ler Simone de Beauvoir. Nunca tinha lido. Nem imaginava que minha mãe tinha um livro com essa temática. Então comecei a ler, devagar.  Estava fazendo tudo devagarinho em outubro passado, com uma dose de vacina no braço e máscara no rosto. Saí de casa para encontrar as amigas  pela primeira vez em quase dois anos de pandemia. ...

Ciclo

Depressão. Rejeição. Superação. Depressão. Rejeição. Superação... Euforia. Simpatia. Alegria.  Euforia. Simpatia. Alegria... Arrependimento. Entendimento. Acolhimento.  Arrependimento. Entendimento. Acolhimento... Desamor. Contrapor. Amor.  Desamor. Contrapor. Amor! A vida é um ciclo. Um ciclo vicioso. Vicioso porque se repete. Se repete porque não encaramos. Não encaramos porque dá medo. Dá medo porque nos deixa vulneráveis. Vulneráveis porque somos imperfeitos. Imperfeitos e humanos. Humanos e frágeis. Frágeis, mas corajosos. Corajosos, mas responsáveis. Responsáveis e maduros. Maduros e empáticos. Empáticos e amorosos. Amorosos e amigos. Amigos e companheiros. Companheiros na alegria e na tristeza. Na tristeza que passa. Passa porque a vida é um ciclo. Um ciclo vicioso.

Páginas e páginas de culpa

Guardo no fundo do armário uma caixa de cartas que tenho recebido desde 1989. São 33 anos de lembranças. Todas boas. Cartões de aniversário, de Natal, de formatura. Folhas de caderno com dezenas de recadinhos das amigas do primário, do colegial, da faculdade, do jornal. Muitos envelopes feitos à mão, com detalhes coloridos, adesivos. Tem carta das primas, das amigas, da mãe, da irmã, da vó. De quem um dia foi família e hoje já não é mais. Mas tem uma única carta, de quatro ou cinco páginas, que eu guardei só para lembrar que um dia eu também já magoei muito alguém. Uma única carta de uma pessoa que abandonei há 23 anos. Linhas que hoje estão quase ilegíveis.  Nesta carta, que hoje eu fui reler e descobri que o tempo a deixou quase ilegível, eu sou descrita como a pior das amigas. Enquanto ela provou sua amizade para mim de inúmeras maneiras, eu só fiz magoá-la. E ela sofreu tanto, que precisou desabafar nesta carta, que mais parece um diário dos dois anos em que fomos "amigas...

triste né?

Eu estou triste. Essa é a palavra que melhor define o que sinto agora: tristeza. Essa semana eu trabalhei, eu conversei uns minutos com algumas pessoas, cantei músicas velhas bem alto, vi filmes e séries tristes e quase botei fogo na casa. E fiquei triste. Fui fazer um pão na chapa e esqueci a frigideira no fogão aceso. Baixei o fogo, vi que o pão estava bom e coloquei no prato. Passei cream cheese e fui pra sala. Duas horas depois sinto cheiro de queimado. Achei que era o lenço que coloquei sobre a lâmpada para escurecer a sala, mas não era porque a lâmpada de led não esquenta. Fui para a cozinha buscar a toalha de banho e vi a frigideira sobre a chama do fogão ainda acesa. Não acreditei que tinha esquecido. E fiquei triste. Como também não acreditei que esqueci de produzir e entregar um pedido essa semana. Se a amiga não avisa, o filho dela estava esperando a bolachinha até agora. O que deu errado? Eu fiquei triste. Na noite passada fui dormir às 2h30 da madru...