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pulseiras

Buscar referências faz parte do dia a dia do produtor de conteúdo. Elas podem estar nas séries e filmes, na música, na leitura de jornais, nos telejornais, no rádio, nos podcasts, nas conversas aleatórias e, claro, nos livros. Não me lembro ao certo quando foi que comprei "Tudo nela brilha e queima", de Ryane Leão. Meu primeiro livro de poesias escolhido. Só me lembro de ter achado lindo o nome da página da escritora no Instagram, @ondejazzmeucoraçao, e pensado: essa leitura vai fazer a diferença na minha vida. Desde que comecei a segui-la na rede social, fiquei com mais vontade de ler poesia. E comecei a seguir outros poetas e comprar outros livros de poesia. E os textos não eram nada como os poemas de Fernando Pessoa com os quais eu estava acostumada, afinal, eu sempre fui muito mais da prosa que da poesia. Mas o texto da Ryane era uma poesia mais crua, quase uma crônica da realidade, com palavras que conversavam comigo e, muitas vezes, traduziam os meus sentimentos.  Então...

voz

Faz tempo que eu escuto uma voz dizendo que eu deveria ser diferente: tem alguma coisa de errado com você, a voz ecoa. Como assim você é tímida?  Como assim você tem pavor de cachorro?  Como assim você fica com dor de barriga e não quer ir viajar com a amiga? Como assim você prefere ficar em casa ao invés de ir na discoteca? Como assim você não usa vestido e sandália, só shorts, camiseta e tênis? Como assim você perdeu o prazo da inscrição do vestibular? Como assim você quer ser jornalista se não abre a boca?  Você é bonita, mas conhece a simpatia para perder barriga? Deixa eu te ensinar as palavrinhas mágicas! Você tinha um cabelo tão bonito. Por que não toma um remédio para o cabelo crescer mais forte?  Eu nunca viajaria tão longe e gastaria esse tanto de dinheiro para ver um show. Você escreve bem, mas por que se expõe tanto na internet? Que raio de jornalista é você que não sabe editar vídeos e fazer fotos? Se você tem um diploma de jornalista, por que largou tud...

quatro estações

Eu fui a uma apresentação da Orquestra Sinfônica de Londrina sozinha, numa quinta à noite. Decidi meio de supetão ao ver a programação na rede social: as quatro estações de Vivaldi. Me lembrei dos dias que passei com meus pais e minha avó na praia, no final do ano passado, e no dia que meu pai viajou para São Paulo a trabalho e eu passei a tarde com as duas mulheres que me criaram. Teve uma hora que pedi para a Alexa tocar música clássica e deitei no sofá ao lado da minha mãe, que jogava candy crush. Minha vó estava sentada na sua poltroninha azul, ao lado da janela, vendo o movimento da rua.  Ela já tirado pelo menos dois dos seus vários cochilos diários, antes e depois do almoço. Um cochilo de fome, que acontece entre 11h30 e 12h, logo antes da minha mãe servir o almoço. E o outro entre 13h e 13h30, quando ela se sente muito cansada depois de comer. Ela se estica na cama por uns minutos e logo volta para a poltrona achando que dormiu a tarde inteira. O terceiro cochilo é sempre ...

cistos

Estou prestes a tirar um cisto da cabeça. Nada grave. É um cisto sebáceo que nasceu despretensioso, como outros dois cistos que removi anos atrás. Parecem espinhas e coçam enquanto crescem.  Um dia, a dona Ana, mãe do Re, usou seus conhecimentos de enfermeira para tentar expulsar um dos cistos do meu pescoço, mas só provocou dor. O negócio era mais embaixo, bem mais embaixo. Então, agendei a cirurgia. Minha mãe veio ficar comigo no dia em que fui à clínica dermatológica tirar os cistos: um no pescoço e outro na axila. Mas foi tudo tão rápido e indolor que ela nem precisava ter vindo. Mas quando ouvi a palavra anestesia, gritei “manhê” e ela veio. Me lembro de eu mesma ter dirigido de volta para casa, mas não me lembro o nome da médica, só que o consultório ficava numa rua perto do Zerão.  Lembro também de a médica ter me mostrado o tamanho dos cistos e eu, incrédula: “Como uma simples espinha podia ser tão grande?”. Deixei os cistos lá para biópsia e o resultado apontou: benig...

Alanis

Assistindo ao show da Alanis eu me percebi chorando em muitas músicas. Eram letras que diziam coisas importantes, principalmente sobre como a vida pode ser irônica, citando um dos maiores sucessos da cantora. Quando começa o show, eles exibem imagens da trajetória dela ao longo dos anos, construindo o storytelling tão comum no marketing, para despertar a emoção no público. E conseguiram. Naquele momento eu fui fisgada, porque construí na minha cabeça o meu storytelling. As imagena dela ativaram minhas lembranças adolescentes, quase todas em casa e na escola. De repente, o som da gaita. E eu me arrepiei inteira. Fui transportada para o meu quarto no Novo Mundo, onde costumava ouvir música no discman, antes de dormir. Não que eu fosse grande fã de Alanis. A Na é quem tinha o cd. Mas vez ou outra eu pegava emprestado para ouvir os gritos da canadense. E gostava de ver clipes na MTV e ela dominava a programação. Na época, não tinha internet, então não me lembro como aprendia a cantar a...

Zio

 Será que tudo o que vivi nos últimos dias me preparou para esse momento? Será que alguém está realmente preparado para entender a morte? Será que a gente deve apenas respeitar e aceitar?  Meu tio mais velho morreu. Lutou uma batalha contra uma doença traiçoeira que tirou sua alegria de viver. Seu corpo cansou e seu coração parou.  O jovem sério que virou meio pai dos irmãos, depois que a mamma morreu cedo, e botava medo nos pequenos por conta da responsabilidade assumida tão jovem, tornou-se um tio divertido. Que gostava de contar as histórias da Itália e do sítio. Falava o dialeto do Friuli e ensinou aos sobrinhos paródias italianas que decoramos sem saber o que significavam as palavras difíceis de repetir. Tiri biri...more seco...pater nostri...fa tre di che non l'hai di...se mia nonna non mi da pan...na notte di Natale, nasce un bel bambino...Maria con il velo copriva Jesu...e assim a gente matava a saudade do zio Mario todo Natal.  Quando a gente pegava a estrad...

sempre em frente

O melhor amigo do meu pai da faculdade de engenharia se foi. Meu tio. Padrinho da minha irmã. Compadre dos meus pais, que são padrinhos do filho deles. Eu lembro que sempre me senti muito acolhida e amada quando encontrava a família Mendes, ainda que a gente se visse pouco. Uma vez por ano, talvez duas, no máximo. A amizade dos meus pais com os padrinhos da minha irmã é daquele tipo que quando se encontra é como se nunca tivesse deixado de se ver. O tio era professor. Falava alto, era muito inteligente, gostava de política e escrevia artigos de opinião para os jornais. Fazia amizade com os alunos e queria mudar o mundo com as suas ideias. A tia sempre junto. Professora divertida, carinhosa, inteligente, extremamente generosa. Sempre trabalharam muito. Seus filhos (meus primos) lindos, inteligentes, carinhosos, generosos como os pais. Único defeito da família é serem corintianos. O tio se foi depois de uma batalha contra uma doença degenerativa que lhe tirou a independência motora. A ca...