vapor Sises
Fui convocada por uma prima que mora na Itália para ajudá-la a recuperar informações sobre a imigração dos seus nonnos, que vieram ao Brasil junto com os meus nonnos, na década de 1950. O motivo é uma homenagem que a cidade onde a mãe dela mora fará às famílias que imigraram no pós-guerra.
Prontamente acionei minhas tias e tios, ouvi seus relatos, reuni fotos e consegui escrever um textinho simples sobre a trajetória da Tia e do Tio, como eram chamados pelo meu pai e seus irmãos a zia Evelina, que na verdade se chamava Celestina, e o zio Luigi, o barbe Gigi ou zio barbe para as crianças.
Foram eles que ajudaram a criar os filhos do meu nonno Igino depois que a nonna Teresa morreu muito jovem, com apenas 40 anos, em decorrência de uma embolia pulmonar.
Quando a prima leu o texto e viu as fotos dos seus nonnos, sua mãe e suas tias, tão novinhos, ficou emocionada, e misturou português e italiano para agradecer a ajuda. Me emocionei quando ela disse: "Que bela jornalista você é. Veramente, complimenti. Nem eu sabia de tudo isso e quase chorei de felicidade ao ler".
Contar essa história, ainda que num microtexto, me levou para mais perto dos nonnos e reacendeu a vontade de escrever a história da minha família. Preciso me organizar para sentar com meus tios e meu pai e ouvir suas lembranças. Enquanto isso, deixo guardado aqui esse pedacinho da história dos tios para eu ler e me inspirar no futuro.
***
O casal Luigi Guerin e Celestina Casasola Guerin imigrou ao Brasil no início dos anos 1950, à convite da Companhia Brasileira de Colonização e Imigração Italiana.
A empresa foi responsável por implantar a infraestrutura e fixar os primeiros imigrantes italianos na região de Pedrinhas Paulista, no interior de São Paulo, a partir de 1951, organizando a Cooperativa Agropecuária de Pedrinhas Paulista.
Luigi chegou ao Brasil pouco antes, em 1949, em busca de trabalho na cidade de Manduri, onde viviam parentes de sua mãe Celeste. Desanimado com a falta de oportunidade de emprego, escreveu ao seu irmão Igino, contando que desejava voltar à Itália. Já sabendo da criação da colônia Pedrinhas, Igino sugeriu ao irmão que permanecesse no Brasil e o encontrasse em Pedrinhas, pois ele também tinha o desejo de imigrar. Igino chegou ao Brasil em 1951, onde se estabeleceu em um sítio na recém-criada colônia italiana de Pedrinhas Paulista onde já vivia seu irmão Luigi. Juntos, organizaram a vinda do restante da família.
Em 1952, Celestina, com apenas 22 anos, viajou com a filha Rita, de 3 anos, ao lado da cunhada Teresa Vignaduzzo Guerin, esposa de Igino, de 31 anos, e os filhos dela Mario, 11, Rosanna, 10, Adriano, 5, Luciano, 4, Pierina, 2, e Enzo, de apenas 1 ano. Antonio Guerin, 44 anos, irmão de Luigi e Igino, era o responsável da família que viajou por mais de um mês no navio a vapor Sises, que partiu do porto de Gênova rumo ao porto de Santos, onde desembarcou em 28 de agosto de 1952. Com eles viajou, ainda, a nonna Celeste Sbaiz Guerin, mãe de Luigi, Igino e Antonio, que tinha 69 anos na época.
Chegando ao Brasil, foram recepcionados por Igino e levados a Pedrinhas para a nova vida.
No início, viviam todos juntos no sítio, onde cultivavam grãos e criavam vacas, galinhas e porcos para subsistência. As famílias recebiam da Companhia um pedaço de terra, animais e equipamentos para trabalhar na agricultura e parte da colheita era destinada à própria Companhia como pagamento pela posse da terra.
Luigi e Celestina tiveram mais duas filhas em Pedrinhas: Antonia e Celestina, quando já moravam em um sitio próprio. Celestina ajudava no trato dos animais e no cuidado da casa, enquanto Luigi trabalhava na produção agrícola.
Assim aconteceu até que ele foi convidado a trabalhar na máquina de beneficiamento de algodão recém-adquirida pela Companhia. Com o fim do plantio de algodão na região de Pedrinhas Paulista, a familia foi convidada a morar em Goiás, para onde a máquina foi transferida. Então, Luigi seguiu trabalhando no beneficiamento do algodão na colônia Pedrinhas de Goiás até a morte da cunhada Teresa, em 1961.
A família retornou à Pedrinhas Paulista para ajudar na criação dos sobrinhos. De volta à cidade, Luigi teve um bar, depois abriu o Hotel e Restaurante Bologna, no centro da cidade, em meados dos anos 1960. As filhas já estavam crescidas quando ele decidiu abrir o Restaurante e Lanchonete Primavera, em 1974, que fez muito sucesso na região. O restaurante permaneceu aberto até 1981 e tinha como carro-chefe a lasanha verde preparada pelas mãos habilidosas de Celestina.
Com o fechamento do restaurante, a família mudou-se para o município vizinho de Ocauçu, onde Luigi comprou um sítio e voltou a trabalhar na agricultura até se aposentar.
O casal foi pioneiro no desenvolvimento da colônia Pedrinhas Paulista e são queridos até hoje. No final dos anos 1990, Luigi foi reconhecido pela prefeitura e deu nome à cozinha piloto do recém-emancipado Município de Pedrinhas Paulista, na gestão da então prefeita Ida Franzoso de Souza. Em 2019, a cozinha piloto foi ampliada e modernizada e reinaugurada, recebendo o nome de Centro de Alimentação Luigi Guerin, na gestão do prefeito Sérgio Fornasier.
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