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pequenos dramas

"Não é sobre o que você faz e sim com quem você faz. São as conexões que você faz pelo caminho que realmente importam." Ouvi essa reflexão num podcast bem meia boca sobre felicidade (quatro desconhecidos discorrendo aleatoriamente sobre o tema tarde da noite) e a tomei para mim. Na maior parte do tempo não sei sobre o que as pessoas estão falando. Nem mesmo meus melhores amigos. Principalmente porque trabalho sozinha em casa e fico o dia todo perdida em meus próprios pensamentos, tomando minhas decisões solitária, quase sempre de forma bem pensada. Ainda que minha personalidade sagitariana impulsiva demonstre o contrário. Eu penso muito. Muito mesmo. E às vezes busco ajuda para decidir. Jogo meus dramas para o outro, dando a ele o poder de me validar. Estou sempre em busca de validação. Mas depois de pensar sobre a frase da moça do podcast, eu resolvi ressignificar meus pequenos dramas diários: não é sobre o resultado - até porque eu normalmente já sei a resposta quando ...

quatro estações

Eu me apaixonei por você num outono. Você pulou da escada e meu coração disparou. Eu fui me apaixononando por você um pouco por dia. Naquela conversa de horas, divagando sobre seriados de tevê, eu simplesmente entendi que meu coração nunca mais estaria vazio. Eu não queria ir dormir. Você me levou até a sala e me desejou boa noite do alto daquela escada. Eu me apaixonei por você num inverno. Numa conversa de bar, na montanha. Eu soube ali que minha vida nunca teria graça sem você. Eu estava alegre de rum com coca e sonolenta e mal conseguia te ouvir quando dividimos uma cama pela primeira vez. Nós descemos a montanha e nós cantamos na estrada, a lua refletindo nos campos de arroz. Nós temos uma música. Eu me despedi de você com a promessa de que te veria de novo nesta vida. Fazia parte da minha lista de coisas a fazer antes de morrer. Nós trocamos muitos e-mails, por anos a fio. Com o tempo eles foram se tornando mais e mais raros. Até que um dia e...

o dia em que os londrinenses foram pro sítio

Não sei porque mas senti uma energia tão positiva naquela sexta-feira à noite que meu corpo se recusou a dormir. Fazia muito tempo que não varava a noite conversando, esperando o sol nascer. Ele nasceu às 6h40 da manhã de sábado quando estávamos em três sobreviventes sentados na grama, olhando o céu. Mas estava nublado então não foi aquele nascer do sol de respeito que esperávamos. Havíamos acabado com um engradado de cerveja e filosofado sobre como deve ser a vida dos jovens adultos nascidos no século passado. No caso, nós. As adolescentes deste século nos fizeram companhia e foram responsáveis por tocar Joy Division enquanto deitávamos no terreirão para ver melhor as estrelas. Ainda não acredito que essa banda foi trilha sonora de uma noite no sítio. De madrugada. Com os compadres. Com a afilhada. Com os pais da Clara. E com a Ceci e a amiga veggie. Gente do bem que em uma horinha montou algumas pizzas e comeu pão italiano enquanto esperava a muçarela derreter na calabresa. Foi a s...

realidade x ficção

Ontem todo mundo foi até a casa da minha mãe ver a vó. Ela caiu da cama, machucou o peito e sentiu-se mal. Precisou de umas boas horas no hospital do novo convênio para descobrir que está bem. Só precisa se alimentar melhor. Tomou soro com vitamina B12 para dar uma arribada, como se diz. Chegou na casa da filha abatida, dolorida e reclamando como sempre. Mas comeu um prato de sopa e tomou um banho antes de vestir a camisola lilás e deitar na cama que um dia foi da segunda neta e agora será dela. Ai o pessoal começou a chegar para visitá-la. Primeiro meu pai, que chegou com uma sacola de remédios, entre eles pomada para as dores da sogra. Depois chegaram meu tio com a esposa e as duas filhas. Eles acabavam de voltar das férias na praia. Um bom tempo depois chegaram meu primo e a namorada, que subiram na moto depois da aula de salsa só para ver a vó. Minha irmã estava na praia e usou o aplicativo de vídeo para pedir para a vó se comportar. Minha outra tia ligou mais tarde para saber da...

Treisoitão

Hoje já é amanhã então significa que às 20 horas desse novo dia completarei 38 anos. A neta mais velha de um lado, número 13 do outro, a primogênita com uma irmã só. A moça que é sempre Mari, Ma, Mariane e até Marina, mas quase nunca Mariana. A jornalista independente que já vive fora da casa dos pais há 15 anos. A aprendiz de confeiteira que pagou os boletos deste ano com o dinheiro da venda de bolachinhas que ela assa no forno de casa. Que engraçado. Enquanto trabalhava na minha cozinha hoje, fui escolher uma música no spotify e ele me sugeriu ouvir a playlist das mais tocadas na minha conta este ano. Foi muito divertido cantarolar músicas que me remetem a uma adolescência tardia e pensar que eu ainda não cresci. Não de verdade. Passei o ano viajando, indo a shows, vendos séries na tevê, lendo livros feministas e indo ao cinema sempre que deu na telha. O trabalho foi pouco se comparar ao tanto de horas trabalhadas nos últimos sete anos. Mas sinto como se eu tivesse passado de ano n...

doutora

Passei semanas construindo textos na minha cabeça. Têm sido dias de muito sentimento. Queria falar sobre o quanto aprendi sobre limitação e empatia. Queria dizer que gostaria de ter votado no segundo turno das eleições mas não estava em casa e que chorei no colo da mãe depois do resultado. Queria falar do meu medo. Queria contar que a irmã finalmente terminou a tese e que bateu um orgulho danado da doutora que se formou por mérito próprio. Creio que ela é a primeira doutora da nossa família. Doutora em recuperação de áreas degradadas. Criadora de florestas. Disseminadora de conhecimento. Pesquisadora. Putaquepariu tenho uma irmã doutora. Acho que essa é a melhor notícia que eu não publicarei como jornalista. Não escreverei sobre a pesquisa dela porque já não escrevo mais profissionalmente. Há um ano, cinco meses e oito dias. Mas quem está contando. Eu fiz tanto durante esse tempo mas às vezes eu sinto que não fiz nada. Separar a rotina de jornalista da de confeiteira micr...

sobre ser sagitariana romântica incurável

Eu chorei por quase duas semanas inteiras. Sempre um pouquinho por dia, para sobrar para o dia seguinte. O choro foi de transformação. Um choro de quem está definindo as coisas que não quer mais e descobrindo as coisas que quer da vida. E quando isso acontece, o coração fica tão grande que mal cabe no peito. E dá aquela angústia. Mas é mais um "que bom que você lembrou que estou aqui e continuo batendo, apesar de tudo". Eu tenho deixado esse coração meio de lado e agora que o velho corpo parece funcionar mais tranquilamente, o meu bom bombeador de sangue - e sentimentos - demandou a tal atenção merecida. Eu não sei o que vai acontecer. Mas não posso mais ficar resolvendo tudo nas ideias e decidir que isso ou aquilo não é para mim sem antes viver o isso ou aquilo. É simples assim. Ou melhor, não é tão simples. Mas é perfeitamente possível. E se tiver chororo, que seja de alegria pelas descobertas.