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essa tal ansiedade

Olá meu nome é Mariana e sou ansiosa. Sempre fui ansiosa e sempre serei ansiosa, não importa se fiz terapia, se bebi uma cerveja com os amigos para esquecer, se fugi para a casa da prima para brincar com a pequena. A ansiedade está sempre lá. Tenho certeza que ela nunca vai me deixar. O porque eu não sei, apenas tenho essa certeza. Então tenho que aprender a conviver com esse sentimento se não quiser enlouquecer. Tentar ter paciência. Ficar mais calma. Quase sempre consigo, mas tem dias que quero mesmo é correr da vida. Me esconder debaixo do cobertor. Fechar os olhos, virar para o lado e voltar para os sonhos. Mas não dá. E mesmo eu não"tendo família", ainda preciso pagar as contas. Gosto de consumir. E para poder ter acesso à tevê a cabo, à geladeira cheia, ao carro com tanque cheio, aos passeios com os amigos, às viagens para encontrar a família, às roupas novas, à internet, ao celular, preciso de dinheiro.  E preciso de calma para encarar a jornada. Aquela empresa não me ...

escalando a mangueira

Eu me lembro bem daquela mangueira no sítio do nonno. Ela ficava ao lado da casa, fazendo tanta sombra, que era impossível não querer colocar as espreguiçadeiras lá e simplesmente sentar e curtir a brisa.  Me recordo de um dia especial em que eu, minha irmã e minhas primas - o quarteto fantástico - resolvemos fazer um piquenique sob as folhas da majestosa mangueira. Era época de Natal e tínhamos decidido sortear um amigo secreto entre nós quatro em cima da hora. Os presentes seriam comprados na única lojinha de quinquilharias que tinha na cidade. O piquenique iria coroar nossa brincadeira.  Convencemos a tia a nos deixar ir para o sítio de bicicleta - sob o sol escaldante das duas horas da tarde no horário de verão - e ficarmos por lá, sozinhas, durante a tarde toda de férias, explorando o sítio.  Ela, então, preparou o lanche com pão caseiro, encheu o garrafão de água gelada, separou copos, toalha, guardanapos e distribuiu tudo nas cestinhas das nossas bicicletas. E s...

o jornalismo

Ficar sem escrever um tempo me pareceu a coisa certa a fazer. Tirar férias do trabalho, dos amigos, de mim mesma. Das palavras. Viver um dia de cada vez, sem tantos planos, apenas algumas vontadezinhas a realizar. Ao lado da mãe, tão paciente. Um pânico tremendo tomou conta de mim na primeira noite na minha velha cama de solteira, no meu colchão com mais de 20 anos, já saturado, que machucou minhas costas até eu decidir trocá-lo por um mais novo, 15 dias depois. De repente eu queria ficar ali para sempre. Não queria mais voltar para o velho emprego. Que mantenho há uma década. No principal jornal da cidade de terra roxa. Eu simplesmente não queria mais ser jornalista. E virava do outro lado e chorava. Não contei nada para a mãe, para não preocupá-la. Decidi ir à academia todas as manhãs. Lá ficava com meus próprios pensamentos. Minhas músicas. Um livro chato, que abandonei nos primeiros capítulos. E a bicicleta e seus incontáveis quilômetros. Se eu queria comer tudo o que visse pela fr...

a Tia

Viver é experimentar uma eterna solidão. Não tem como compartilhar nada. Nem dor, nem alegria. Cada um sente sozinho, do seu jeito próprio. A gente pode até tentar mas a importância é diferente para cada um e ponto. Se é dramatico é porque não sabe fazer de outro jeito. Se é pragmático é porque encara a vida na prática. Se é egoísta é porque escolheu se dedicar a apenas alguns poucos e bons. Se prefere se isolar na dor é porque aprendeu a se cuidar sozinho. Se se transforma no objeto de afeto é porque ainda não se descobriu de verdade. Se não consegue sorrir é porque não sabe o quanto é doce. Se volta para o antigo amor é porque se deu conta de que a paixão é mesmo fugaz. Se escreve é porque não sabe viver sem as palavras. A Tia morreu. E com ela levou o sorriso e o carinho que distribuia ainda que sentisse dor. Ela não reclamava, apenas aceitava. E vivia um dia de cada vez. Foi só ao vê-la com os olhos fechados naquela sala quente cheia de parentes distantes que eu me dei conta de que...

crescer dói

Ser adulta é um saco. E ninguém me avisou que doía tanto. Outro dia, sem querer, me acabei em lágrimas por uma bobagem. Parecia que tinha levado uma bronca daquelas da minha mãe, como se ainda fosse criança e tivesse aprontado alguma. Mas não foi nada disso. Só doeu como se fosse. Mas assim como chegaram, as lágrimas se foram. Precisava encarar as responsabilidades diárias e fazer isso chorando por uma bobagem me pareceu bem infantil. E não posso agir como criança quando der na telha. Preciso ponderar. Escolher os momentos. Ô dificuldade. Nesse mesmo dia do vale de lágrimas, uma amiga querida me disse que sou muito boa ouvinte. Que sou uma pessoa confiável, com quem as pessoas não têm medo de dividir os problemas. Me senti orgulhosa. Mas lembrei de todos os momentos em que deixei alguém colocar a cabeça no meu ombro e o que veio depois dessa simples ação. Algumas vezes me fez sentir importante e como se realmente tivesse feito a diferença para o amigo. Outras vezes, de nada servi. Ou m...

a sopa

Afe. Tá difícil. Me sinto com fome o tempo inteiro, mas não estou a fim de desistir ainda. Espero aguentar o fim de semana. A verdade é que precisava de um estímulo para recomeçar os exercícios. Em março, passei o mês inteiro numa "dieta" e caminhando na esteira pelo menos três vezes por semana. Desinchei e emagreci um quilo. Praticamente nada, mas ao ler meus relatos daquele mês, senti orgulho de mim mesma e decidi que deveria cuidar melhor de mim. Agora que, finalmente, não sentarei mais na poltrona marrom toda quinta-feira. Esta foi, talvez, a coisa mais difícil que tive que fazer por mim mesma em 32 anos e se deu tudo certo, qualquer coisa pode dar certo. Basta querer. E me comprometer. Claro que não vou comer sopa todo dia para o resto da vida, mas esse líquido "mágico" vai me ajudar a gostar do que vejo no espelho. Psicologicamente falando, já me sinto muito melhor com meu corpo do que há três anos atrás, quando iniciei a terapia. (Ah, como eu era magra e não ...

o dia em que recebi uma cartinha de um leitor

Escrevi esse dedo de prosa num instante de folga numa tarde corrida de trabalho no jornal, enquanto esperava as matérias chegarem dos repórteres e das agências. Nada demais, na verdade, mas depois de publicado, o texto recebeu um elogio especial de um leitor, que me mandou uma cartinha, escrita à mão, sublinhando suas frases favoritas. Me encantei!  Um refúgio Quando eu penso em campo, penso em árvores. Muitas árvores. Imagino árvores frutíferas, deixando cair suas delícias no chão de terra. O que fica no chão alimenta os animais mais espertos. Já o que fica no tronco, se colhe e se come, fazendo escorrer o suco doce da boca. Imagino os fiapos de manga no meio dos dentes, morder uma laranja docinha e espremer o sumo de um limão refrescante. Sonho com um moranguinho adocicado e um mamão no ponto de fazer compota.  Quando eu penso em campo, lembro de terra. Vermelha. Produtiva. Lembro de feijão, de arroz, de milho, de soja, de trigo, de aveia. De flores das mais diversas co...