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vida sem filtro

Eu senti um aperto no peito ao receber uma notícia bem triste no segundo dia do ano. Foram dias de aperto no peito. O aperto passou, mas deixou uma certeza: é preciso estar perto de quem se ama. Decidi fazer todos os tipos de sacrifício para ficar com que eu amo. Ainda que dê preguiça de vez em quando. Ainda que o sofá e a tevê pareçam mais convidativos. Ainda que a mãe insista em ficar brava por motivos irracionais. Ainda que ela me faça chorar depois de mais de um dia sem dormir. Eu quero estar perto de quem eu amo porque é desse amor que me alimento. É esse carinho que me faz ter vontade de seguir em frente. Eu preciso ser mais paciente, menos reclamona, mais sorridente, mais positiva. Desses pequenos momentos ao lado de quem me ama incondicionalmente eu conseguirei o combustível para acreditar que posso ser uma pessoa melhor. Não perfeita, melhor. Ao receber outra notícia bem triste e descobrir que quem eu amo está mais próximo de mim do que eu poderia imaginar, tive a certeza de q...

eu posso

Este ano foi o ano do "Yes, I can". Eu posso morar sozinha, ainda que seja difícil enfrentar a solidão de algumas tardes de domingo. Eu posso guardar dinheiro, ainda que não tenha conseguido economizar o suficiente para a viagem dos sonhos. Eu posso passar um mês de férias na casa dos pais sem brigas, ainda que tenha chorado muitas madrugadas, sem vontade de voltar ao trabalho. Eu posso cobrir as férias do colega que acabou de virar papai e editar esportes, ainda que eu tenha passado o mês coçando. Eu posso dar conta de editar veículos e agronegócio e ainda dar plantão na economia e política, ainda que não saiba muito bem como lidar com os repórteres. Eu posso viajar à Inglaterra e dirigir um super Land Rover, ainda que tenha batido em quatro carros parados. Eu posso ganhar alta da terapia, ainda que sofra os meses seguintes, tentando lidar com os problemas sozinha. Eu posso ir ao Rio de Janeiro com a prima assistir a Azzurra jogar no Maracanã, mesmo que tenhamos esperado qua...

dias de praia

Hoje é aniversário da minha madrinha que tem nome de rainha. Regina. Ela que é mãe de três, tem dois empregos e uma cachorrinha que é uma flor. Ela que é esposa do tio Zé, o único irmão da minha mãe. Meus padrinhos. Aliás, diferente da italianada da cidade de nome diminutivo, minha família paulistana é relativamente pequena. E sempre esteve presente enquanto eu crescia na metrópole.  Nos reuniamos quase sempre aos domingos na casa da vó Therê e do vô Milton, no Novo Mundo. A casa que tinha o jardim de rosas mais cobiçado da redondeza. E nós brincávamos de mamãe polenta e lenço na mão no quintal e depois nos sentávamos à mesa da cozinha para comer bolinho de banana, coscorão ou pão torrado com manteiga. Também balançávamos nas redes e inventávamos teatrinhos imitando a Praça é Nossa.  Me lembro quando os tios moravam no mesmo prédio que a gente, um andar acima. Lembro de sempre ir brincar com o Adriano, o filho mais velho da tia Re. Lembro até do dia em que ele ganhou o fusc...

tentando acordar

Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, acorda. Foi isso que o horóscopo on-line me disse hoje, dia em que acordei às 3h30 da manhã com insônia e decidi ver filmes na tevê para tentar pegar no sono. Não tenho me sentido bem ultimamente. Criei uma cobrança interna que precisa se dissolver antes que eu mesma me dissolva em lágrimas. Pode ser plutão, pode ser TPM, pode ser o fim de ano ou o inferno astral. Ou simplesmente o fato de ter tomado uma decisão difícil e não saber como compreendê-la. Decisões corporativas são complicadas, nem sempre dependem da gente e é preciso saber separar o joio do trigo para não levar problemas para casa. Quero me perdoar por mais essa decisão, que, sim, teve uma parcela minha, mas não inteiramente. Foram três cabeças pensando no que seria melhor para todos, a longo prazo. Basta aceitar e seguir em frente. Preciso aceitar. Enquanto isso, o apartamento ganha uma cor nova, de esperança por melhores momentos no ano novo que se aproxima. Ganha um qua...

almoço de domingo

Tenho uma prima emprestada que gosta muito de cozinhar. Filha de pais italianos, agricultores, ela e as duas irmãs mais novas foram criadas no sítio. Com a mãe, aprenderam a desossar frango, preparar linguiça, fazer massa fresca e condimentar um molho bolonhesa como ninguém. Transformar berinjelas na verdadeira caponata siciliana também é uma das especialidades da família, conhecida ainda pela produção de ricota caseira.  Como vivem no Mato Grosso do Sul, onde as propriedades são grandes e ficam muito longe da cidade, mercado só se faz de vez em quando. Então, as mulheres da família aproveitam para arregaçar as mangas e produzir a maioria das guloseimas em casa, com o que têm no quintal.  Como adoro passar os finais de semana na cidade de nome diminutivo - onde não tem nem semáforo - com a parentada italiana, dia desses pude participar do ritual de preparação do almoço de domingo na casa da tia caçula, sogra - e vizinha - da prima emprestada que adora inventar no fogão....

essa tal ansiedade

Olá meu nome é Mariana e sou ansiosa. Sempre fui ansiosa e sempre serei ansiosa, não importa se fiz terapia, se bebi uma cerveja com os amigos para esquecer, se fugi para a casa da prima para brincar com a pequena. A ansiedade está sempre lá. Tenho certeza que ela nunca vai me deixar. O porque eu não sei, apenas tenho essa certeza. Então tenho que aprender a conviver com esse sentimento se não quiser enlouquecer. Tentar ter paciência. Ficar mais calma. Quase sempre consigo, mas tem dias que quero mesmo é correr da vida. Me esconder debaixo do cobertor. Fechar os olhos, virar para o lado e voltar para os sonhos. Mas não dá. E mesmo eu não"tendo família", ainda preciso pagar as contas. Gosto de consumir. E para poder ter acesso à tevê a cabo, à geladeira cheia, ao carro com tanque cheio, aos passeios com os amigos, às viagens para encontrar a família, às roupas novas, à internet, ao celular, preciso de dinheiro.  E preciso de calma para encarar a jornada. Aquela empresa não me ...

escalando a mangueira

Eu me lembro bem daquela mangueira no sítio do nonno. Ela ficava ao lado da casa, fazendo tanta sombra, que era impossível não querer colocar as espreguiçadeiras lá e simplesmente sentar e curtir a brisa.  Me recordo de um dia especial em que eu, minha irmã e minhas primas - o quarteto fantástico - resolvemos fazer um piquenique sob as folhas da majestosa mangueira. Era época de Natal e tínhamos decidido sortear um amigo secreto entre nós quatro em cima da hora. Os presentes seriam comprados na única lojinha de quinquilharias que tinha na cidade. O piquenique iria coroar nossa brincadeira.  Convencemos a tia a nos deixar ir para o sítio de bicicleta - sob o sol escaldante das duas horas da tarde no horário de verão - e ficarmos por lá, sozinhas, durante a tarde toda de férias, explorando o sítio.  Ela, então, preparou o lanche com pão caseiro, encheu o garrafão de água gelada, separou copos, toalha, guardanapos e distribuiu tudo nas cestinhas das nossas bicicletas. E s...